Portugal livrou-se da Troika mas não se livrou do seu destino. Vi na vinda daquela uma grande oportunidade para mudar este país. Confesso que acreditei ser possível, tamanha era a desgraça e urgente a solução. Apercebo-me que a melhor notícia que a Troika nos permitiu foi a de uma saída limpa. Um conceito que nada traduz a realidade em que a mesma nos deixou, nem deve constituir motivo de orgulho para qualquer cidadão português. Continuamos a viver uma ilusão. Aquela ausência significa uma presença menos visível mas orientada no mesmo sentido, focada nas contas públicas, sem visão das consequências económicas e sociais. Uma presença igualmente incapaz de conhecer em profundidade a realidade do país e sem força para mudar aquilo que se impõe e que resulta da falta de coragem nacional. São os mesmos que enquanto “salvavam” o país, à nossa custa, conviviam, com todo o rigor, com o sistema financeiro onde já reinava o maior escândalo de que há memória, sem que isso fosse detectado pelos seus terríveis testes de stress. Portugal é o mesmo mas, momentaneamente, um pouco mais consciente. Ficou claro que a falência do país só poder ser resolvida pelo sector privado, através do aumento de impostos e da redução dos rendimentos das famílias. Temos a certeza que o Estado, mesmo sendo o principal causador, não é chamado, na devida medida, a participar na solução. Não se regenera, não se encolhe, não se redimensiona, não se moderniza, nem se liberta. Ficou, igualmente, claro que Portugal está condenado. Será, como sempre, uma questão de tempo, porque as causas não foram atendidas e as soluções não passaram de medidas de recurso, ao mais simples e imediato, envolvendo, invariavelmente, os mais indefesos. Hoje, mais do que nunca, é evidente que temos o que somos. Culpar a Constituição é certo mas não chega. A classe política é a mesma. É manifestamente incapaz, aprisionada, redutora, inconsciente e impreparada. A responsabilidade política continua substituída por interesses e alimentada por jogos de poder que afastam qualquer compromisso nacional que possa valer a utilidade daquela. Enquanto assim for, a culpa continuará a morrer solteira, o interesse comum manter-se-á ausente, a meritocracia sem espaço e a justiça (o pilar fundamental da democracia) profundamente doente, o que faz de nós um povo desigual, inculto, descrente e, apenas, feliz na ilusão.

Eduardo Jesus Economista