O mundo oferece-nos hoje a possibilidade de um tempo sem tempo, um tempo que pode ser o fim do tempo se, como pode suceder, conseguirmos assassinar a natureza ao mesmo tempo que nos suicidamos. A defesa do tempo é, por tudo isto, defesa da cultura e da maneira de viver a história. Essa defesa tem um lugar. Chama-se o presente, aqui e agora. Porque o passado acontece hoje, quando recordamos. E o futuro acontece hoje, quando desejamos. De facto, o tempo sempre foi um problema. Desde o princípio do tempo. Um problema redundante visto que o problema do tempo é o próprio tempo. Na raiz do problema, há duas maneiras de conceber o tempo. Para uns a realidade é mudança incessante. O mundo está em chamas. A lei dos opostos é cruente. Tudo tende a converter-se no seu contrário e é isto que cria a mudança. A história é a história da violência. O tempo é luta. O devir e o fluxo são a única realidade temporal. A permanência é ilusória. Se o movimento cessa, o universo entra em colapso e o tempo termina. No Timeu, o Criador explica como transformou o Caos Original em Ordem Universal. A imensidade de Deus não depende do espaço. A eternidade de Deus não depende do tempo. Mas, enquanto tempo e espaço são ocupados por coisas e acontecimentos, coisas e acontecimentos coexistem com o espaço e sucedem-se no tempo. Mas o tempo não para à nossa espera enquanto viajamos até ao passado ou até ao futuro. Chegamos sempre tarde. Foi o que me aconteceu ontem, hoje, talvez amanhã… Por isso entendo que a política é algo mais que um episódio eleitoral. É preciso elevar a participação política, ampliar o acesso às comunicações e assegurar que as pessoas conheçam e revindiquem os seus direitos. A política, na minha modesta opinião, tem de ser um exercício diário de direitos e vigilâncias. Daí a minha preocupação política que a liberdade do mercado se imponha, negando-a à liberdade do trabalho. No debate político e económico sobre a crise que atravessamos falta ainda avaliar algo de muito importante – o seu custo humano. De facto, não podemos esquecer que a má gestão dos governos pode conduzir a um saldo desastroso de tragédias humanas. Basta olhar para Portugal para compreender como os cortes orçamentais prejudicam gravemente a saúde e o bem-estar físico e mental dos cidadãos. Se as receitas da austeridade agravam fatalmente os efeitos da crise, mutilando programas de apoio social, fundamentais precisamente no momento em que são mais necessários, agravando as taxas de desemprego e impedindo a recuperação económica, não menos pertinente será questionar a importância dos défices para sairmos da depressão que nos atormenta e voltarmos ao pleno emprego, ou perto disso, porque não precisamos de estar a sofrer desta maneira. Ainda na passada semana a Ministra das Finanças, num típico exemplo da “arte da manipulação política”, lançou a confusão política e intelectual quando disse, na Universidade de Verão da JSD, que a austeridade era para continuar e que as realidades económicas fundamentais obrigavam a um bloqueamento de uma acção efectiva e que o desemprego não podia impedir os objectivos prioritários do défice. O governo, pela sua voz, tinha deixado de se concentrar no desemprego para continuar a concentrar-se no endividamento e nos défices. Os avisos ominosos sobre o perigo dos défices excessivos tornaram-se o pão nosso das atitudes políticas, apregoadas por pessoas que, por se considerarem a si mesmas serias, resolvem proclamar a sua seriedade. Como se pode verificar por outra novidade do discurso da referida ministra, o governo encara como possível e aconselhável um debate no parlamento sobre a restruturação da divida, algo que este governo criticou com todas as suas forças quando do lançamento do “Manifesto dos 74”. Na altura, ouviram-se, no país inteiro, horripilantes avisos de um desastre eminente por existirem vozes, da direita à esquerda, que contrariavam a resolução imediata do problema do défice (por oposição à implementação de medidas a longo prazo que não contribuíam para deprimir ainda mais a economia). Mas o medo exagerado em relação ao défice continua bem presente no discurso político e nas medidas políticas do nosso país. Para além da dúvida que se levanta em relação à divida publica e aos défices é no mínimo estranho que se baseiem as exigências na reivindicação de que as medidas políticas devem ser mudadas para satisfazer o mercado e depois menosprezar as provas bem claras de que o mercado em si mesmo não partilha dessas mesmas preocupações. A ver vamos…
José A. Roque Martins