
Perdoem-me mas hoje vou falar de futebol. Não vale a pena estar aqui a discutir táticas, nem estratégias de jogo quando nos escondem uma outra estratégia, um outro jogo fora das quatro linhas. Não vou perder tempo a ser treinador de bancada quando outros treinadores de bancada bem mais jogadores do que nós, espectadores e entusiastas do futebol, abancam toda a atenção que meia nação despende de olhos pregados em 11 homens vestidos de vermelho tinto a correr desalmadamente atrás de uma bola, sem classe, nem ordem, nem discernimento para, ao fim de 90 minutos de agonia e sofrimento, nos virem entregar este epíteto de selecção de todos nós: uma equipa sem vergonha, sem memória, sem honra nem glória.
As opções do seleccionador, seja ele qual for, são discutíveis, apesar de haver uma ideia pré-concebida e generalizada pelos donos da bola de que as decisões de um técnico são soberanas e tudo o que seja questionar a razoabilidade das suas opções é considerado um ultraje. Todos nós temos o dever de avaliar o exercício e o desempenho dos dirigentes públicos, não fossem nossos assalariados, que usufruem regalias e ordenados principescos, que os tornam nuns silingórnios privilegiados numa sociedade cada vez mais austera.
É por todos sabido que a partir do momento em que a máquina de distracção de massas não produz o ópio, o povo chuta a bola para a lama. Assim foi após aquela humilhante derrota caseira com a Albânia, 70.ª do ranking mundial. Ninguém sabe em que lugar a nossa selecção vai parar na classificação da FIFA, mas já tratamos de colocar o 11 de Paulo Bento ao nível do 31 de Pedro Passos Coelho. Eu não queria falar de política, mas convenhamos que ambos os domínios se regem pelas mesmas regras: apoiam aparelhos viciados para atingir fins que não aqueles aos quais se propuseram; reiteram a confiança de dirigentes bem domesticados para acertar onzes e táticas à mesa de restaurantes, alimentando-se de ocultos interesses tentaculares. E nós deliramos com este espectáculo circense onde uma arena de relva é um passeio pelo Gerês para uns, uma passerelle de vaidades para outros ou um tapete vermelho onde se piscam olhos aos amigos e aos empresários.
Eu compreendo a dificuldade para encontrar novos valores ao nível daquilo que a história da selecção nacional de futebol nos habituou nos últimos anos. Nesse campo, há um caminho errado ao qual Paulo Bento não só é alheio como também, estou certo, não se revê: a desenfreada importação de jogadores estrangeiros para abastecer a principal Liga de futebol. Está a ser feita de modo desproporcional, a retirar espaço às jovens promessas portuguesas. À excepção de dois ou três bons exemplos, os dirigentes dos maiores emblemas em Portugal imitam o Governo no seu pior, apontando a porta da emigração a quem tem valor. Perdemos as nossas referências porque andamos num desnorte, pela América do Sul e pela Europa de Leste à procura do que temos cá dentro. Triste país este que despreza o talento que tem. Temos matéria-prima mas não temos pachorra para fabricá-la. E não é incompetência. É mesmo gestão danosa deliberada.
Envaidecemo-nos com os jogadores que fizemos para as outras selecções. A escola de formação dos nossos, a nossa 'cantera' é um recreio de onde só se saem promessas a conta-gotas para a titularidade, sempre como segundas opções. Rentabilizámos o produto estrangeiro até o entregarmos a predadores maiores. O novo mundo do futebol é feito de estações de transferência de jogadores. É claro que os clubes têm de ter receitas, que o futebol é um negócio. Pena que a honestidade, a sustentabilidade e a transparência não sejam denominadores comuns. Pena que se privilegie o manto de negociatas, que se mantenha sob o véu da imaculidade dirigentes subservientes sem craveira que jogam mais fora de campo do que o nosso onze sem Cristiano Ronaldo naquele Portugal-Albânia: sem espectáculo, sem motivação, sem resultado, nem paixão, e conseguindo manter, entre os pingos da chuva, toda a confiança naquela selecção nacional de interesses perante a amargura de meia dúzia de uns improvisados lenços brancos.