Que havia entre nós de tão forte e de nós mesmos escondido que a todos os abismos descíamos juntos com a pureza das nascentes?!
Por entre as torres, espaço vertical do desumano, há ervas e sol e flores sangrentas ao pé da água morta e um espesso odor de plantas desconhecidas. Reconhecemos as azáleas, os asfodelos, as malvas, os miosótis, os amores-perfeitos; por entre as sebes ocultas. Havia ainda o nosso jogo de perdermo-nos no labirinto e aquelas árvores trémulas, prateadas, que não queriam dizer o nome. A água quase não se lamentava na grande solidão do céu de Setembro que entrava em nós. Falaste; e foi para me dizeres que assim não, que a vida vivida aos bocados não presta, que assim preferias nem me ver, embora ali te sentisses, por excepção, quase feliz. Vamos caminhando para a praia, que a esta hora não dourada que faz da espuma uma renda de mãos maravilhosas: foi decerto o que me atraiu. A dor que sentia, imóvel, do lado esquerdo, a ossificar-se, proibia-me a fala; restava o mar - e nunca a frialdade do mar ou da noite me assustaram. Deixei a roupa, a esmo, na areia e, nadando, parecia-me que estava a lavrar aquela seara azul para um amanhã que já não me diz respeito. Afasto-me do nosso mutismo e de toda a palavra apodrecida que deixou de funcionar, que foi, no entanto, entre nós palavra de paixão, de comédia, de litígio, de exaltação e de cansaço, como entre quaisquer outros seres que tenham experimentado até ao delírio, à inocência, à fúria, o que é amarem-se um homem e uma mulher, chegando à vontade extrema de ser o outro, de tudo lhe dar, quando afinal se dá quase sempre tão pouco. Ampliou-se prodigiosamente a minha capacidade de percepção: sinto e vivo tudo. Dantes, só em momentos excepcionais me inteirava realmente do que estava profundamente acontecendo em mim e à minha volta e dava a esses estímulos uma resposta de curto alcance: quando se está letargo não se responde bem. Há que estar preparado. Agora, sim, posso absorver tudo, é como se tivesse conseguido um filtro para as sensações; sinto a força e a beleza de certos instantes na sua qualidade e na sua quantidade reais, todo o maravilhoso de um além-vida, imanente à minha existência, ao meu corpo. Nado, o ar que expiro é fogo brando à flor da onda e das algas; avanço, empurrado certamente pelos braços da noite disposta a me aceitar. Porque começo a perceber que não desejo regressar. Tantas vezes pensei, no átrio onde tenho feito sala, que isto havia de acontecer-me, até já o escrevi; e, contudo, nadando sempre para mais longe, interrogo-me sobre coisas miúdas, irrisórias tarefas que não completei… Os barcos nocturnos, companheiros que me inspiram uma serena, pequena ternura, não darão pelas borbulhas que hão-de assinalar a minha descida sem luz até às raízes do mar. Não, não me apetece voltar, a frustração seria a mesma, repetir os gestos, nada cumprir, sorrindo desrazoavelmente, e ternamente para ti…Para quê ? Contudo, na água, no sangue, desta líquida toalha que vou sulcando, ainda aquém ( mas por quanto tempo ? ) da forma pura, do imenso ricto e riso da morte, não sei, ainda não quando e como e onde me decido. O teu ventre na praia à minha espera, a boca que se entrega prometendo que é o fim. Certamente banal, mas banalidades destas são únicas, na sua agonia de carne e sonho, para um qualquer. Como eu. A minha linha viva. O que resta do percurso, as veias da ardentia, no longe das traineiras, um rumor de asas que só pode ser o da fuga agitada dos peixes, ou outra ilusão, os derradeiros avisos distantes, que já não me importa decifrar, as corolas do mar por abrir, para não abrir, as inquietas vagas que crescem agora, com os seus dorsos brancos, de uma tão imoral brancura; e eu cada vez com menos forças…Se gritasse, já ela não me ouvia. Ontem tudo valia a pena e, fora desta redoma, é provável que eu tornasse a sentir o vigor e o arrebatamento das multidões. Mas aqui dentro, enleado no visco do meu mar, deste meu mar, nem eu nem outro alguém se liberta. Antígona primeira. Antígona de olhos tão suaves como noite sem fim, vestida de esperança escultural em meio desolução…
Renata Camacho