Desde de muito pequenos, ainda crianças, fomos construindo os nossos heróis. Uns nasceram nos nossos espíritos a partir da banda desenhada, outros em qualquer romance onde a acção do nosso herói nos surpreendia pelas suas qualidades e destreza, pela sua força ou sentido de criação de um mundo do insólito que nos cativou nas nossas pequenas mentes. Deram-nos tantas vezes a faculdade de ser outro - melhor, de poder ser outros - graças à fantasia. Mais tarde, como jovens adolescentes criámos uns outros heróis nunca apagando os anteriores da nossa memória. Eram heróis com os quais nos identificávamos por razões culturais ou de pura diversão, por exemplo. Demonstravam-nos que a vida que vivemos é muito pequena face a todos os desejos e expectativas que alimentávamos. Convertiam-nos em personagens que tinham vidas extraordinárias e cujas imagens incorporávamos nas nossas. Mais tarde, já adultos, abraçámos os valores e estimulámos os princípios que já eram elementos básicos da nossa formação democrática. Aprendemos, em primeira mão, o que é o controlo e a manipulação da opinião pública, a destruição sistemática da verdade. Com estes instrumentos criámos um não-herói que com o “seu poder trará o desespero de habitar no coração por mais dura e longa que seja a noite da tirania. Pela mesma causa que haviam de nascer os tiranos haviam de nascer os homens que haviam de aprender com a natureza o amor livre à vida, os que apreenderam as lições do tempo. Foi assim que construímos a Democracia. Foi assim que alguns de nós haveriam de animar e levantar, dignificar e dar consciência cívica e libertar o nosso povo. Foi assim que nasceram os heróis, aqueles que partindo do meio dos homens sem liberdade, dos campos e cidades trouxeram os valores demonstrativos do nosso povo. Os heróis emergem do povo e é o povo que lhes atribui as honras e a força para derrubar os tiranos e ganhar a liberdade. Homens que chefiavam os demais com coragem e decisão. Homens que fariam de qualquer menino o herói dos seus contos, o mais terno dos deuses de toda a nossa sociedade. Vem tudo isto a propósito da leitura atenta e deliciosa do meu ”livro de férias”, o romance “O Herói Discreto” de Vargas Llosa que nesta sua última obra (2013) relembra os cenários, os personagens e alguns dos temas dos seus livros fundadores - a coragem, o medo e a necessidade de resistir a novas formas de injustiça e maldade. Este “herói” ,que é a ?gura principal do romance, emerge de um principio moral encarnado num personagem que não se considera um moralista, nem se considera um herói, mas que é uma pessoa discreta. Um homem que tem uma decência natural que o leva a bater-se contra os delinquentes criminosos. Eu acho que em todas as sociedades, incluindo a nossa, há estes heróis discretos que são os verdadeiros heróis. Os da vida quotidiana, não os agentes de uma acção espectacular e passageira, mas donos de uma perseverança e consciência sem demência. Numa sociedade marcada por um discreto racismo e por uma discreta indiferença perante os delitos plurais, creio que “estes heróis discretos são a reserva moral que tem um país, mais do que os heróis militares, os heróis épicos”. De facto, só o povo concede, alimenta e cria o herói. Nasce nas suas entranhas que são as suas necessidades. Nasce do povo, é o próprio povo no máximo das suas qualidades. Como o poeta, vai na frente do povo. Porque o poeta e o herói constróem os povos, dão-lhes personalidade, dignidade e vida. São os momentos supremos na vida de uma nação e na vida de um povo. Momentos tão necessários como o respirar, a comida que se come, a mulher que se ama. Por isso, os inimigos do povo, os traidores do povo, os que querem enganar tentam apresentar os poetas e os heróis na praça pública. Mas esses são os falsos heróis e falsos poetas. São os mesmos que na altura de eleições vão para as portas da igreja para serem vistos mas que não vão à Santa Missa. Os heróis estão na praça quando o povo clama pedindo liberdade. O herói está na frente do povo quando o povo se levanta conquistando a liberdade. Os coroados de louros que se apresentam como heróis são muitas vezes apenas tiranos sobre o povo, em dramático dia de Carnaval desfilando na Avenida do Mar. Heróis não são só os que estão no Panteão Nacional, são tantos outros homens simples e discretos que nos permitiram entrar noutra dimensão, viajar no espaço e no tempo, conhecer outros mundos. Mas a nossa vida trouxe até nós muitos falsos heróis que juraram fidelidade ao seu povo mas o que ?zeram ao longo dos tempos foi traí-lo e não o respeitar. Embora a política tenha sido despojada das façanhas heróicas, as visões messiânicas dos projectos sociais mobilizadores transformaram-se em recepções enfáticas ou em representações apocalípticas. No desânimo, vive lactente uma expectativa defraudada com a qual não aprendemos a conviver. Por isso a política tem que aprender a gerir pós-heroicamente a decepção e entendê-la como um espaço de expectativas abertas. Sem falsos heróis, sem tiranos porque estes mais não são que meros agentes deste desencanto sem aspirações e deste futuro que hipotecamos porque acreditámos em heróis sem estatura, sem princípios e sem valores. Por isso, acreditar que “os heróis discretos são a grande reserva moral que tem o país”.

José A. Roque Martins