Parece que meio mundo desconfia do outro meio mundo. Desconfia-se dos professores e das escolas e das universidades, dos clubes e dos treinadores e dos jogadores, dos tribunais e dos juízes e dos advogados, dos hospitais e dos médicos e dos enfermeiros, das oficinas e dos mecânicos, dos empreiteiros e dos mestres e dos trolhas, dos bancos e dos “banqueiros”, dos órgãos de comunicação social e dos jornalistas, dos partidos e dos políticos, etc., no fundo desconfia-se de tudo o mexa e mesmo do que não mexe. Mas há ou não razões para desconfiar? Será um fenómeno recente ou houve alturas em que tal não acontecia? Será que a partir de alguns casos particulares em que os processos foram pouco transparentes e os intervenientes “contornaram a lei, a ética e a deontologia profissional” se generalizou e no fundo confunde-se a árvore com a floresta? Certamente que cada um, em função dos seus conhecimentos e das suas vivências, terá uma resposta que muito provavelmente considera indiscutível. Mas porque é que isto acontece? Certamente não serão razões pontuais porque o problema é geral e está em todo o lado. A causa profunda não estará num processo pedagógico (na escola, no clube, na comunicação social, etc.) que privilegia a capacidade de reproduzir conhecimentos (ou só informação?), fazendo dos alunos, em todos os âmbitos, ‘fotocopiadoras’ da matéria do exame? Num mundo em que o saber pode ser acedido de milhares de formas e maneiras e é cada vez mais amplo e mais poderoso, potenciado pela pressão de meios cada vez mais influentes? Conhecimento, informação, saber, sabedoria são tudo coisas diferentes, note-se. Sem um sentido crítico apurado e seletivo a riqueza do conhecimento pode tornar-se um risco e um perigo. E, claro, não defendemos a ignorância. Certamente que num quadro destes é fácil vender e promover idolatria a partir de alguns sinais exteriores de “sucesso”, mesmo desconhecendo em absoluto quais os seus alicerces. Não aprendemos mesmo depois de sermos confrontados com alguns “ídolos com pés de barro”, por exemplo banqueiros que afinal manipulavam as contas, campeões apanhados nas malhas do doping, “equipas e dirigentes de sonho” que viciavam os resultados, etc., continuamos alegremente a assobiar para o lado passando rapidamente a venerar novos personagens. As únicas alternativas não são idolatrar ou denegrir, é necessário desenvolver a capacidade de compreender os fenómenos, analisando processos e não apenas acontecimentos. Não podemos continuar a valorizar mais o embrulho do que o conteúdo.
Helder Lopes