Cipriano Baptista Gouveia A procura de emprego, uma autêntica odisseia. Comparáveis a peregrinos, fomos chegando, cansados, mas lá estávamos com o rosto limpo e esperançados. Uns à procura. Outros à espera. E como é evidente do céu só vem sol, água, sombra, relâmpagos, áureas boreais, cometas e de vez enquanto avistam objectos voadores não identificados. Já na sala éramos ao todo 63 à procura de emprego, algo que deveria ser um direito e não uma impossibilidade que para muitos se chama desemprego de longa duração. Na sala de conferência havia jovens e menos jovens, todos necessitando urgentemente de trabalho, uns para se auto sustentar, outros com filhos, casa e mulher para comandar. Havia mulheres gordas, altas, baixas, solteiras e casadas, todas elas com direito a uma profissão que lhes garanta autonomia e dignidade. As duas doutoras, empenhadas, falaram com o coração nas mãos. Após as devidas saudações, iniciaram o discurso, dizendo: - Nós sabemos que cada caso é um caso, nós vamos abordar assuntos a vários níveis logo, cada um apanhará aquilo que mais se adeqúe a sua situação, caiu-me um pedaço nas mãos, o que mais tencionamos é que ao saírem de aqui saíam prontos para entrar em acção, é evidente que estamos a viver tempos difíceis, confusos e controversos, actualmente todos estamos a viver as consequências da crise, porém toda está conjuntura-engendrada nem sequer tem rosto visível, é uma questão global, as multinacionais emigram e o desemprego é uma consequência da insustentabilidade provocada pelos banqueiros corruptos, coitados dos nossos políticos, são obrigados a fechar centros de saúde, farmácias e escolas, não, não diga isso não adianta mandá-los à merda, seria uma falta de educação, a altura de cruzar os braços já passou, já passou a altura da revolta, nós lhes vamos dar as ferramentas úteis para que possam fazer uma procura activa de emprego, por ex. há quem remeta o currículo dentro de uma garrafa para seduzir o patrão, o que desejamos é que vocês definam os vossos objectivos, acreditem em vocês, definam os vossos objectivos, acreditem em vocês, por exemplo: vocês podem ir ao mercado dos lavradores e comprar tomates, cebolas, dióspiros, bananas, figos, maracujás, alfarrobas, fruta-pão e frutos secos, criam cabazes e metem o vosso currículo lá dentro e enviam-nos e dessa forma cativaram os mais renegados patrões, esses precisam de ser incentivados, sei lá, ofereçam os vossos serviços, pensem em estratégias, examinem a multinacional em causa, e apresentem sugestões, sejam empreendedores, arrojados, definam os vossos objectivos, ou então como disse o outro emigrem e, para aqueles que não podem pagar a passagem do avião, podem construir uma jangada ou então vão a nado, reparem hoje em dia já não há empregos para sempre, a mobilidade não é uma coisa negativa, são dinâmicas puras, mas em todo o caso não quero que se preocupem. pois no meio desta conjuntura tenho uma excelente notícia, esta manhã foi-nos confirmado que na Assembleia da República já foi aprovado a aplicação da eutanásia para os nossos inscritos, calma, calma, porque é que estão a olhar com essas caras de terror, não há motivos para tal, antes pelo contrário, alegrem-se que isto é uma boa nova, o governo quer reduzir totalmente o desemprego, aliás se o stock para a eutanásia for suficiente, o governo garante que nunca mais haverá um desempregado no país, por cá na região são 25 mil ao desempregados e desses vinte e cinco mil, dez mil querem ser motoristas de camião, mas só podemos garantir três postos para os que vão guiar o transporte dos beneficiários da eutanásia, ouçam, fiquem atentos que em breve lhes enviaremos nova convocatória, bom dia e por favor deixem de ser derrotista levantem essas caras, vá, a eutanásia proporciona uma morte pacífica, é como um adormecer, não se preocupem que aquilo não dói nada. Nota: a finalidade deste comentário disparatado é para agradecer às duas doutoras pela forma dinâmica e realista de como abordaram o tema dos desempregados.