No ano em que se comemoram 40 anos de Abril, confesso que tenho sentido especial dificuldade em partilhar as minhas reflexões. Assim se justificam as minhas ausências num espaço em que me propus, mensalmente, escrever. Afirmo de forma peremptória que pouco vivi do antigo regime e pelo que oiço e leio não alimento qualquer saudosismo de tais tempos. Fará uma ano em Setembro que a Madeira viveu uma viragem política inedita, no poder local. A capital Madeirense viu uma miscelânea partidária tomar o poder ao regime instalado. Afirmou o líder de tal movimento que se fez Abril. Pouco tempo depois, o candidato que se afirmava independente, participa num congresso partidário, sendo que a sua intervenção assume um cariz meramente político, de oposição ao governo que nos governa a nível regional, num acenar flagrante de manifesta vontade de vir a assumir posição de relevo nesse partido, defraudando todos quantos acreditaram na sua independente vontade de servir a sua cidade. A coberto duma guerra de esplanadas e cadeiras, assiste-se à tomada de posição na autarquia de tal partido, projectando para segundo plano os demais, que assobiam para o lado para não admitir que foram usados na dita tomada de poder. Do outro lado, os candidatos derrotados, numa negação clara das suas motivações de serviço à comunidade aquando de anteriores eleições, em vez de retomarem as suas anteriores posições profissionais, assumem funções de assessorais e afins que muitas dúvidas se nós levantam quanto à sua adequação às necessidades de controlo da despesa pública. Arranca a corrida à liderança, com sucessivos e lamentáveis ataques pessoais, quebrando um uníssono de anos que nos leva a encarar os tempos até então vividos como de sobeja hipocrisia. A crise econômica traz a lume um conjunto de golpes e golpadas privadas que nós fazem lembrar os tempos em que a ditadura protegia o poder econômico dominante... Afinal o que se defendia em Abril? Chavões que camuflam o interesse individual e a promiscuidade de interesses público-privado? Uma diferença clara temos: somos periodicamente chamados a votar, direito e dever cívico que pouco mais nos tem trazido que o papel de marionetes num regime político cujo rumo questionamos onde nos levará!
Rui Gomes Coelho Economista