Na Madeira, pode bem dizer-se, o rumo da Democracia de 40 anos tem um só rosto. Tem uma só maneira de agir. Houve sempre uma única pessoa importante a governar e a decidir. Essa mesma pessoa, agora deixada cada vez mais só, deixará seu legado, com tudo o que tem de bom e de mau, a um sucessor, que também ele será único importante. 40 anos é muito tempo, desde o tempo em que nasceu a Democracia e, com ela, a hipótese de escolhermos um representante que não fosse sempre o mesmo e que fosse escolhido por todos e para todos. Foram anos com um partido a assumir o poder e outro partido, quase em exclusividade, a assumir o ónus de ser a oposição. Foram aparecendo, entretanto, outros partidos, com outros protagonistas. Mas, nenhum alguma vez venceu. Não foi conseguida a credibilidade para tal. Não a construíram. Entretanto, tanto na oposição como no partido do poder, as mesmas caras de todos esses mesmos anos, continuam a ditar as regras, as causas e as consequências. E ainda há quem acredite em ambos os lados que, para mim, são um só. Personificam cada vez mais a incapacidade de se renovarem, de se reinventarem, de confiarem, de serem frontais, humildes, de descentralizarem, de imaginarem a região sem eles a ditar (como se estivéssemos condenados a perecer no dia imediatamente ao dos seus próprios perecimentos). Está na altura de renovar. Com ódios alimentados ao longo de décadas, plasmados em figuras que sempre assumiram os rumos dos seus partidos, convenhamos que a capacidade e probabilidade de se atingirem consensos, é mínima. Senão mesmo, nula. Ninguém, ao completar décadas com o poder amarrado à cintura, pode olhar-se ao espelho e ver um democrata. O problema não é nem nunca foi a democracia e os partidos. São as pessoas que deles se servem e deles se acham proprietários. São pessoas que ao longo dos anos abdicaram de tanto do que os fazia humanos que, quando chegam ao poder, já se perderam de quem eram no início do percurso. Esgotou-se-lhes a paixão e com ela, a razão. Chega de Albertos, de Josés, de Robertos, de Jaimes, de Leonéis, de Emanuéis e Manéis. Precisamos de Ruis, Miguéis, Paulos, Rubinas, Rodrigos, de Martas, de Nunos (sim, de Nunos), de Duartes e de tantos outros que não são os que sempre foram e sempre os que fizeram e disseram. A diferença é que, entre os últimos, o diálogo e o entendimento é possível e, entre os primeiros, a falta dele perverte tudo o resto, desde que mantenham os pequenos e os grandes poderes. Votar sempre nas mesmas pessoas à espera de resultados diferentes, coloca os eleitores muito próximos da definição de insanos. Coisa que, como têm provado com a crescente abstenção, não o são. Ou os partidos mudam realmente ou, quando não forem considerados parte da solução, não se poderão queixar do desfecho e dele serão os principais responsáveis e deverão assumir as consequências, em vez de apelidarem os eleitores de desinteressados, de incultos, de não participativos, de desinformados. É sempre mais fácil pôr o problema nos outros em vez de olhar para dentro. Responsáveis e consequências? Ora aí estão duas palavras que há muito fazem falta na nossa política. Os reis vão, cada vez mais, nús.

Nuno Drumond