
Os resultados da prova de avaliação docente fazem-me lembrar aquele ditado que aprendi com a minha professora do 1.º ciclo que colocava a turma em sentido com um simples pouso da régua sobre a secretária: “quando o ferro quente não se molda, ou é do malho ou do malhadeiro”.
Os dados ontem divulgados pelo Instituto de Avaliação Educativa demonstraram que a maioria dos professores que realizaram a prova de avaliação docente escreveu um texto com erros ortográficos, de pontuação e de sintaxe. A nossa recção óbvia de seres intransigentes e pouco perdulários quando chega à hora de avaliar o desempenho daqueles que avaliam as nossas sementes, não se fez esperar: um escândalo! Que vergonha! Estamos a pagar para ter os nossos filhos entregues a essa corja que não sabe escrever uma linha certa! É por isso que os pequenos escrevem aquela gramática da ‘new age cyberschool’ feita de kapas no computador!
Esta nossa espontânea indignação enche de razão o Governo da República que já esfrega as mãos, ávido por abrir a porta e por mandar para o desemprego mais uns milhares de professores contratados com menos de cinco anos de serviço.
Não está em causa a legitimidade da prova. A meritocracia faz todo o sentido desde que seja séria. E quem avalia não pode ficar imune à avaliação contínua de alguém suficientemente competente, superior e idóneo. O que duvido, e muito, são das verdadeiras intenções desta prova que já conseguiu a proeza de descredibilizar a classe docente, subtraindo mais ainda um bem que rareia nas salas de aula: a autoridade do professor. O que o Governo pretende é descartar de uma só assentada professores e responsabilidades.
O absurdo de tudo isto está, mais uma vez, na origem. Quem habilitou para leccionar 6.439 jovens professores que hoje dão pontapés na ortografia, 5.314 que dão erros de sintaxe e 6.847 que não acertam na pontuação? Como obtiveram o canudo? Então os profissionais qualificados pelo Ministério do Ensino Superior já não prestam para o Ministério da Educação ao fim de apenas cinco anos? Afinal, a garantia que nos é dada pelas universidades e pelas escolas superiores de educação é inferior à que nos é oferecida pela construção de um bloco de apartamentos? Para onde caminhamos?
Mais do que os professores, quem precisa de ser reprovado é o sistema de ensino em Portugal. Para quando uma oferta de licenciaturas e mestrados ajustada às necessidades reais do mercado? Para quando o fim do negócio dos canudos nas universidades privadas? Para quando uma reforma profunda do ensino superior com meia dúzia de instituições especializadas, de excelência e de qualidade? Até quando se manterá muitas dessas fábricas vendedoras de ilusões aos jovens a troco de propinas?
Mais depressa aceito uma calinada de um professor do que erros de uma sucessão de governos que insistem no mais fácil: culpar o malhadeiro em vez de moldar ferro quente. Errare humanum est, perseverare diabolicum.