O assunto tem barbas e compridas! De tanto ouvirmos a lengalenga, presumo que sejam poucos os que ainda toleram expor os ouvidos à musiquinha do costume. O problema é que ele, presidente do governo regional, se cantasse em circuito fechado, no duche ou entre os seus mais próximos, nada de mal causaria, o mesmo já não se pode dizer quando faz eco da musiquinha política pimba que há muitos anos percorre a Região. O refrão essencial e preocupante resume-se a esta síntese: tudo o que aqui está bem feito fui que fiz (no singular), tudo o resto os senhores de Lisboa são os culpados.
Para umas situações existe governo, para outras é como se não existisse. A assumpção das responsabilidades nos maus momentos e a honestidade de declarar, sem subterfúgios, os graves erros estratégicos, não fazem parte do “modus operandi” do “chefe”! Trata-se de uma atitude doentia que contraria o facto de a Madeira ser uma Região Autónoma dotada de órgãos de governo próprio. Dir-se-á que ele se nega a si próprio, isto é, na maioria das vezes, sendo presidente do governo, discursa como se não fosse. Fala do e para o País como se a Madeira não fosse Autónoma. Dispara para a República como se muitos milhões não aqui chegassem, por via da Europa e do Orçamento de Estado, pelo facto de pertencermos à Nação Portuguesa. Dá fogo à peça como se a organização institucional da Região não fosse semelhante à de um país!
Pergunta-se, então, para que serve dispor de órgãos de governo, de um Estatuto Político-Administrativo e de um orçamento próprio? Para que serve tanta direcção regional, directores de serviço, chefes de divisão, institutos, serviços descentralizados e autónomos, papel, muito papel e dependências sem fim se, na hora da verdade, no momento da responsabilização, a factura dos erros é expedida para Lisboa? Pode-se então concluir que o principal mentor da engrenagem, o aspirante de artilharia, acaba por ser o principal opositor da Autonomia. Não é politicamente sério quem por esses caminhos segue.
E não é sério quem, por cumplicidade (?), vem para aí desfraldar a bandeira do FAMA (Fórum para a Autonomia da Madeira), que apesar de negada transporta a “fama” de ser descendente da velha FLAMA (Frente de Libertação do Arquipélago da Madeira, a quem é atribuída, em 1975, a fase das bombas), em jeito de ameaça: se “os actuais partidos do arco do poder não conseguirem atingir os objectivos da autonomia plena”, o actual movimento FAMA poderá avançar também com um pedido formal para passar a partido político. É o PSD 1 a passar para PSD 2, já que o primeiro, integrado na estrutura nacional, não pode defender o princípio da independência da Madeira. Que gentinha esta! Assumam-se, de uma vez por todas, como independentistas, mas digam como vamos viver e como protectorado de quem?
André Escórcio