Os partidos da oposição insistem em criticar o Governo na Assembleia e nas suas acções políticas diárias. Os autarcas eleitos por outros partidos queixam-se das represálias do Governo. Os próprios candidatos a presidentes do PSD-Madeira denunciam pressões do Governo. E até há governantes que dizem que não se demitem do Governo. Percebe-se o alcance das críticas mas nota-se muita bondade nestes reparos. Partidos, autarcas, candidatos do PSD e até governantes partem do princípio ingénuo de que ainda há Governo e isso é um erro tremendo. Não há Governo nesta terra. E nem é de agora. Há anos que o Governo se demitiu pela calada de uma agenda política secreta e individual, feita à maneira do tamanho do espelho de cada um dos titulares dos vários departamentos regionais. O presidente foi o primeiro a saltar fora. Sem rodeios, disse claramente depois das últimas eleições, ou até antes, que ia estar mais atento aos assuntos europeus e dedicaria menos esforço à política doméstica. Cumpriu quase na perfeição a questão da política doméstica, mas não teve êxito que se conheça na agenda europeia. Com uma ridícula viagem secreta por cada mês que passa, Jardim claramente não governa, mas lá se vai politicamente governando. Depois ainda tem uns reuniões partidárias aqui e ali, umas inaugurações patéticas e uns escritos para o Jornal da Madeira e está preenchida a agenda vazia de um presidente sem Governo. Depois temos o resto dos empossados governantes, onde é justo reconhecer andamentos diferentes. Uns, sobretudo os dois candidatos a líderes do PSD, disputam agora o espaço mediático para falar do que querem fazer no futuro, sem explicar porque não o fizeram no passado ou não o fazem no presente. Outros, divididos entre apoiar este ou aquele, pura e simplesmente deixam andar e esperam que nem se fale deles. Parecem resignados, como quem sabe que isto está a acabar e o melhor é continuar a não fazer ondas. E se a este nível de trabalho e de pseudo-governo é notória a perspectiva de que cada um trabalha para si ou para quem apoia, imagine-se como vão as direcções regionais e outros patamares de poder bem menos expostos. Esta cadeia de desinteresse governativo vem por aí abaixo com as consequências naturais de um governo faz-de-conta. E o mais curioso é que esta evidência nem é realmente contestada. A política do deixa-andar corre a ladeira descontroladamente mas parece aceite como normal. É algo a que os madeirenses de forma geral, incluindo muitos políticos do poder e até alguns da oposição, encaram como uma fatalidade. Encolhem os ombros e esperam que este tempo acabe, que venham outros quando for possível. Esquecem que este pântano não é de hoje, nem da semana passada, nem sequer do ano passado. É nestas águas paradas que estamos desde que este Governo se demitiu por estar a pensar no próximo Governo, aceitando como bom este intervalo governativo. Um erro que tem custos transversais a toda a sociedade e que começa a ser pago. É que no meio deste entorpecimento quase colectivo, os demissionários esqueceram-se dos cidadãos. Sobretudo dos mais novos, gente formada como nunca mas sem perspectivas de emprego como nunca na Madeira nova. O que têm como certo é uma conta enorme para pagar ao longo de toda a vida. É aí que apetece perguntar: Governo? Mas qual Governo?! O que temos é pouco mais do que uma sociedade liquidatária ocupada em pagar em nosso nome as dívidas escondidas por eles durante anos. E isso não é um Governo.