Reconheço que o domínio do código de escrita é fundamental em qualquer profissão A propósito dos resultados da prova aplicada aos docentes com cinco ou menos anos de serviço e dos erros ortográficos cometidos, muito se tem escrito e dito. Algumas reflexões pertinentes, mas a grande maioria dos comentários e opiniões são abordagens populistas, pouco refletidas e generalizações injustas, cujo objetivo parece ser, unicamente, o de enxovalhar e denegrir uma classe profissional. Ora, pensava eu que se ficava por aqui. Mas não. Há quem aproveite para exteriorizar os seus preconceitos, criando um estigma socioprofissional contra uma classe trabalhadora, sem nível nem capacidades para frequentar estudos superiores, quanto mais para ser professor (note-se a ironia). Num artigo de opinião publicado dia onze deste mês, no Observador, intitulado “Temos maus professores”, o articulista Alexandre Homem Cristo, escreveu “…quem hoje frequenta os cursos da área da educação são, em média, os que têm níveis socioeconómicos mais baixos e que, por isso, obtêm mais bolsas de ação social. […] Assim, em termos gerais, quem quer ser professor são os piores alunos, os mais pobres e os menos cultos.” Suspeito que Nuno Crato tenha partido também deste pressuposto: um professor vem de famílias pobres; está habituado a viver com pouco dinheiro; toca a cortar no salário. Que há professores mal preparados, com poucos hábitos de leitura e escrita (caraterística que perpassa por quase toda a sociedade portuguesa), com um percurso escolar menos proveitoso, posso admitir, mas partir dos erros ortográficos para fazer a extrapolação que este articulista faz, é pura presunção e só revela completo desconhecimento do que é ser um bom professor. Independentemente disto, reconheço que o domínio do código de escrita é fundamental em qualquer profissão e, no caso particular da docência, esta questão deve merecer a atenção das instituições de formação de professores, da formação contínua de professores, das escolas e dos próprios docentes. Infelizmente nem todos são filhos do Durão Barroso, que ficam logo dispensados de provas ou concursos públicos, por terem adquirido à nascença a garantia de qualidade profissional. Não deixa, porém, de ser um facto que a queda da ditadura em Portugal permitiu o acesso à educação a jovens que, sem o apoio social prestado pelo Estado, não teriam tido oportunidade de obter. E não deixa também de ser um facto que, de entre os milhares de licenciados nas mais diversas áreas do saber, há uma percentagem elevada de professores, em proporção à necessidade destes profissionais no sistema. Importa é, que sejam dadas condições sobretudo para os alunos desfavorecidos terem melhores oportunidades, através da educação, de ultrapassar a desvantagem educativa (académica, pessoal e social) da classe social de origem. Importa é, não permitir que a escola pública perca qualidade (com o aumento de comportamentos disruptivos, indisciplina, falta de cultura de trabalho, pouca valorização do saber, entre outros fatores) pois constitui um caminho para a transformação social. Sofia Canha
Reconheço que o domínio do código de escrita é fundamental em qualquer profissão
A propósito dos resultados da prova aplicada aos docentes com cinco ou menos anos de serviço e dos erros ortográficos cometidos, muito se tem escrito e dito.
Algumas reflexões pertinentes, mas a grande maioria dos comentários e opiniões são abordagens populistas, pouco refletidas e generalizações injustas, cujo objetivo parece ser, unicamente, o de enxovalhar e denegrir uma classe profissional.
Ora, pensava eu que se ficava por aqui. Mas não. Há quem aproveite para exteriorizar os seus preconceitos, criando um estigma socioprofissional contra uma classe trabalhadora, sem nível nem capacidades para frequentar estudos superiores, quanto mais para ser professor (note-se a ironia). Num artigo de opinião publicado dia onze deste mês, no Observador, intitulado “Temos maus professores”, o articulista Alexandre Homem Cristo, escreveu “…quem hoje frequenta os cursos da área da educação são, em média, os que têm níveis socioeconómicos mais baixos e que, por isso, obtêm mais bolsas de ação social. […] Assim, em termos gerais, quem quer ser professor são os piores alunos, os mais pobres e os menos cultos.”
Suspeito que Nuno Crato tenha partido também deste pressuposto: um professor vem de famílias pobres; está habituado a viver com pouco dinheiro; toca a cortar no salário.
Que há professores mal preparados, com poucos hábitos de leitura e escrita (caraterística que perpassa por quase toda a sociedade portuguesa), com um percurso escolar menos proveitoso, posso admitir, mas partir dos erros ortográficos para fazer a extrapolação que este articulista faz, é pura presunção e só revela completo desconhecimento do que é ser um bom professor.
Independentemente disto, reconheço que o domínio do código de escrita é fundamental em qualquer profissão e, no caso particular da docência, esta questão deve merecer a atenção das instituições de formação de professores, da formação contínua de professores, das escolas e dos próprios docentes.
Infelizmente nem todos são filhos do Durão Barroso, que ficam logo dispensados de provas ou concursos públicos, por terem adquirido à nascença a garantia de qualidade profissional.
Não deixa, porém, de ser um facto que a queda da ditadura em Portugal permitiu o acesso à educação a jovens que, sem o apoio social prestado pelo Estado, não teriam tido oportunidade de obter. E não deixa também de ser um facto que, de entre os milhares de licenciados nas mais diversas áreas do saber, há uma percentagem elevada de professores, em proporção à necessidade destes profissionais no sistema.
Importa é, que sejam dadas condições sobretudo para os alunos desfavorecidos terem melhores oportunidades, através da educação, de ultrapassar a desvantagem educativa (académica, pessoal e social) da classe social de origem. Importa é, não permitir que a escola pública perca qualidade (com o aumento de comportamentos disruptivos, indisciplina, falta de cultura de trabalho, pouca valorização do saber, entre outros fatores) pois constitui um caminho para a transformação social.
Sofia Canha