Verão é o tempo da sugestão imperativa. Da sugestão do que há-de vir e que, na submissão imposta pelo calor, leva à cedência na crença de um tempo infinito, de palavras poucas. Os que por aí estiverem verão. Mesmo os que que não queiram ver não conseguirão escapar a essa visão, nem de olhos cerrados. Verão certamente que o Verão é o mais democrático dos tempos, a estação que a todos toca e abraça, calorosamente, ao contrário da selectividade dos invernos que só molham alguns, mesmo que nem sempre os mesmos. O Sol, de Verão, quando nasce, é para todos. Já a chuva, de Inverno, é privilégio de poucos. Mas Verão também rima com ilusão, na relatividade dos dias longos que roubam o espaço escuro que se reserva, em acúmulo, para o pronto Inverno seguinte. Isto só faz algum sentido num quadro saído de uma daquelas redacções das velhas escolas primárias onde tudo era tão certo e o tempo cumpria o seu tempo e desígnio, indicador do quando acontecer, dos mais ínfimos e infinitos eventos. Nesse tempo, as folhas caíam no Outono e os passarinhos, esses, tinham a sua jornada construtora na fresca, luminosa e obrigatória Primavera. Nesse tempo, os Invernos eram a sério, mais escuros e ruidosos nas tormentas a que se assistiam de olhos fechados, antes da época das televisões aterrarem sob as rendas e panos bordados. Já o Verão era o vazio, o tempo do nada e do ninguém. Tão vazio que, no regresso, a escola pedia apenas um desenho, geralmente correspondido com uma linha horizontal dividindo a página em duas partes, a superior, a azul, com um ou outro peixe a fazer de cetáceo, como que a respirar fora de água e, a de baixo, onde gente escavava buracos num chão amarelo que não existia e outra gente se deitava sobre toalhas que mais pareciam tábuas de tão direitas e perfeitas esquadrias. O Verão, hoje, é muito diferente. Tem gente, tem vida, é quase um carnaval, um cortejo de cor, música, movimento a dois tempos, o do sol, que cura o cansaço da rotina e a ressaca da véspera e, o da noite, curta, que mais não é que o pretexto para a conversa do dia seguinte. É um Verão perverso e estranho, que retira valor ao sol em detrimento do espaço que dedica ao nocturno, coisa que jamais acontece no Inverno. Seria tão interessante se no Inverno as pessoas corressem à noite em busca de solários como no Verão se dedicam a fugir do sol. O Verão, de agora, é também mais perigoso, tem ultravioletas quase sempre em dose máxima, outra injustiça, já que no Inverno não se escuta aviso algum de nem se atingir uma dose mínima e decente dessa radiação. É por estas e por outras que o Verão se esgota num ápice. Quando damos por ele já se foi. Ele bem que nos avisa. Aqui e ali, um dia mais fresco ou de sombra, são sinais sérios para que se aproveite e dê o justo valor a um belo dia de sol de Verão. Essa apreciação devida também é parte da construção do desejo de Verão, aquilo porque se procura ou espera no espaço de tempo que mistura as demais estações. É essa identidade única que distingue o Verão. Não se deixa invadir, não tolera nem se adapta. Interrompe-se, suspende-se ou adia-se mas, nunca se corrompe, nem mesmo durante uma chuva, que nesse caso, será sempre de Verão. E quando não o seja, é o indesejável sinal que determina o fim, de forma clara e irreversível, seguindo-se o lamento e a longa espera até ao próximo Verão.

António Domingos Abreu