Na universidade as raparigas já metiam conversa com rapazes sem se sentirem levianas Não podíamos ir ao café. Ir ao café era “coisa de putas”. Mas nós, virgens da cabeça aos pés, íamos ao Café Bar Mendes ao domingo à tarde beber um “garoto” e falar sobre nadas. Havia rapazes. Falar com rapazes era “coisa de putas”, claro. Mas nós, virgens da cabeça aos pés, falávamos com rapazes. Não somos assim tão velhas. Não foi há 100 anos. Foi na Madeira rural do final da década de 80/início da década de 90. Falávamos com rapazes no salão de jogos do Café Bar Mendes, lá em baixo, na cave, com alguém lá em cima, no piso térreo, a vigiar. Às vezes, cometíamos uma loucura. Íamos ao centro da vila, ao Pub Corvo. Era escuro, podia ser que nenhum adulto visse ou que, vendo, fingisse que não tinha visto. “Atiras um pedaço de carne a um cão, ele não diz que não”, avisavam os adultos. As mulheres não tinham direito ao desejo, o desejo era “coisa de putas”. As mulheres tinham obrigação de ser recatadas, de evitar “provocar” os homens, essas criaturas incapazes de controlar os seus ímpetos. Assunto sério para quem era obrigada a ir à missa e à catequese. Se não nos mantivéssemos castas, que raio de homem haveria de querer casar-se connosco? Sim, casamento e parentalidade faziam parte do futuro, fosse lá qual fosse o futuro. Decorriam disso de ser adulto. Não sei quantas vidas se estropiaram nesse absurdo. Sei que entre as que comigo iam ao café ainda houve quem se casasse por achar que numa noite de sexo comprometera o resto da vida. Mas, como explica Silvana Mota Ribeiro no Público deste domingo, a nossa geração, a chamada “geração rasca”, conseguiu materializar um novo discurso: as mulheres têm desejo e capacidade de o tomar em mãos. Quando entrei na universidade, as raparigas já metiam conversa com os rapazes sem por isso se sentirem levianas. Os discursos, como as mentalidades, mudavam com o aumento da escolarização, a urbanização, o avanço de televisores e computadores, a abertura ao mundo. Mas, 20 anos depois, uma mulher que dá o primeiro passo ainda conta isso às amigas como se tal fosse uma proeza. E dos homens ainda se espera que estejam sempre prontinhos para entrar em acção. Os nossos pais já não acreditam que somos virgens. Perderam essa ilusão algures nos anos 90. Terá sido por essa altura que começaram a ir ao café connosco. Já ninguém, no seu perfeito juízo, acha que ir ao café “é coisa de putas”. Tão-pouco conversar com pessoas do sexo oposto. Ninguém lhes tira da cabeça, porém, que devíamos emparelhar e procriar. Ainda têm dificuldade em perceber mulheres sem filhos como pessoas que se podem sentir completas – e felizes. Ana Cristina Pereira - Jornalista do Público
Na universidade as raparigas já metiam conversa com rapazes sem se sentirem levianas
Não podíamos ir ao café. Ir ao café era “coisa de putas”. Mas nós, virgens da cabeça aos pés, íamos ao Café Bar Mendes ao domingo à tarde beber um “garoto” e falar sobre nadas. Havia rapazes. Falar com rapazes era “coisa de putas”, claro. Mas nós, virgens da cabeça aos pés, falávamos com rapazes.
Não somos assim tão velhas. Não foi há 100 anos. Foi na Madeira rural do final da década de 80/início da década de 90.
Falávamos com rapazes no salão de jogos do Café Bar Mendes, lá em baixo, na cave, com alguém lá em cima, no piso térreo, a vigiar. Às vezes, cometíamos uma loucura. Íamos ao centro da vila, ao Pub Corvo. Era escuro, podia ser que nenhum adulto visse ou que, vendo, fingisse que não tinha visto.
“Atiras um pedaço de carne a um cão, ele não diz que não”, avisavam os adultos. As mulheres não tinham direito ao desejo, o desejo era “coisa de putas”. As mulheres tinham obrigação de ser recatadas, de evitar “provocar” os homens, essas criaturas incapazes de controlar os seus ímpetos.
Assunto sério para quem era obrigada a ir à missa e à catequese. Se não nos mantivéssemos castas, que raio de homem haveria de querer casar-se connosco? Sim, casamento e parentalidade faziam parte do futuro, fosse lá qual fosse o futuro. Decorriam disso de ser adulto.
Não sei quantas vidas se estropiaram nesse absurdo. Sei que entre as que comigo iam ao café ainda houve quem se casasse por achar que numa noite de sexo comprometera o resto da vida. Mas, como explica Silvana Mota Ribeiro no Público deste domingo, a nossa geração, a chamada “geração rasca”, conseguiu materializar um novo discurso: as mulheres têm desejo e capacidade de o tomar em mãos.
Quando entrei na universidade, as raparigas já metiam conversa com os rapazes sem por isso se sentirem levianas. Os discursos, como as mentalidades, mudavam com o aumento da escolarização, a urbanização, o avanço de televisores e computadores, a abertura ao mundo. Mas, 20 anos depois, uma mulher que dá o primeiro passo ainda conta isso às amigas como se tal fosse uma proeza. E dos homens ainda se espera que estejam sempre prontinhos para entrar em acção.
Os nossos pais já não acreditam que somos virgens. Perderam essa ilusão algures nos anos 90. Terá sido por essa altura que começaram a ir ao café connosco. Já ninguém, no seu perfeito juízo, acha que ir ao café “é coisa de putas”. Tão-pouco conversar com pessoas do sexo oposto. Ninguém lhes tira da cabeça, porém, que devíamos emparelhar e procriar. Ainda têm dificuldade em perceber mulheres sem filhos como pessoas que se podem sentir completas – e felizes.
Ana Cristina Pereira - Jornalista do Público