A guerra (diz um personagem de Brecht) não exclui a paz... A guerra tem os seus momentos pacíficos... Entre duas escaramuças, pode-se esvaziar uma caneca de cerveja...

Não pela cerveja, mas sobretudo pelo rei do futebol, chegou-se, na Nigéria, a um cessar-fogo de dois dias, no conflito com o Biafra (ex-colónia britânica), para ver Pelé jogar com a camisola do Santos. A 4 de fevereiro de 1969, por horas (e sob o olhar de 25 mil espetadores), a bola calou as metralhadoras. Mas, mal a equipa embarcou (teve de haver também tréguas entre Brazzaville e Kinshasa), reiniciaram-se rapidamente as hostilidades.

Liderados pelo tenente-coronel Ojukwu, os Ibos - povo de uma província do sudeste do mais populoso país africano – iniciaram, a 6 Julho de 1967, uma guerra civil pela independência que terminou a 13 de Janeiro de 1970. Portugal, então, em guerra na Guiné, Angola e Moçambique, apoiou, paradoxalmente, a autodeterminação do Biafra. Um peso, duas medidas de um país multirracial que pincelava o seu futebol com estrelas dos céus do ultramar longínquo. “Era um país/para onde se ia adormecendo” (António Ramos Rosa). Benfica-bicampeão europeu, Sporting-Taça das Taças e Magriços-66 eram coroas de glória, com os moçambicanos Costa Pereira, Coluna, Eusébio, Pérides, Hilário e Vicente, e os angolanos Santana, Águas e Mascarenhas. Contudo, “não será uma modalidade de eleição do regime”. Ricardo Serrado, no livro O Estado Novo e o Futebol, salienta a aposta “fundamentalmente na ginástica e na educação física”. Salazar entendia – segundo o investigador – que a vela deveria ser o desporto-rei português. A sua distância, em relação ao futebol, observa-se numa pequena frase que proferiu, em S. Bento, após a vitória do Benfica contra o Barcelona, a 31 de maio de 1961: “Este jogo não foi fácil, segundo confirmam”? É claramente o discurso de um homem que não viu nem ouviu esse jogo – conclui Ricardo Serrado que estudou os factos históricos sobre as relações da ditadura com o desporto-rei.

A verdade é que futebol e política (continuamente lado a lado, seja de que lado for) raramente falham na marcação dos penáltis. É quase sempre golo, num jogo que agrada a todas as conjunturas.

Juvenal Xavier - Jornalista