Escorrer linhas sobre política no verão, é sempre um exercício algo singular, numa época de veraneio, divertimento e até dalguma alienação retemperadora. Contudo a chamada “rentrée política” que se avizinha para o final de estação, promete alguma animação e águas agitadas. O PS vai inaugurar umas eleições “primárias”, forçadas pela mediocridade de Seguro, que de forma egoística pensa valer, mais do que efectivamente vale, com o atestado dos resultados sofríveis, exarados das últimas eleições europeias. Como surgiu um candidato mais forte – não é difícil ser melhor que Seguro – capaz de encorpar outro ânimo entre as hostes socialistas, Seguro força assim, o seu poder insosso e acabará por se arrastar à porta da saída, já com Costa com a mão na maçaneta, a lhe indicar o exterior do Largo do Rato. (Nem ouso imaginar a réplica desta serventia na Madeira). Esta ruminante digestão socialista é um maná para a coligação governamental, que assim vê boas possibilidades de repetir mais uma dose de martírio, nas legislativas nacionais do próximo ano. Na Madeira a ebulição social-democrata, revela entre as várias frentes abertas, uma assinalável agitação. Há leituras contrastantes com a liturgia antiga do “status-quo” dominante. Bem sei, que a língua é solta em campanha. Mas, por muita crítica que mereçam os personagens – antigos comensais de faustosos banquetes – é sempre refrescante vê-los falar dum “arrepiar de caminho”, num registo algo desassombrado, até revelando – alguns dos delfins – desconcertantes críticas ao Jornal da Madeira. O mesmo jornal que numa recente decisão judicial, a hilariante justiça – certamente com uma venda que lhe tolda não apenas a visão, como todos os demais sentidos – não deu como provada a parcialidade daquele órgão tutelado pela diocese e maioritariamente pelo governo regional. O Funchal permanece letárgico, com o renovado executivo da Mudança, a chafurdar na poça da inacção. Teatraliza constantemente com lamechices o legado passado, para justificar o derrame da sua incompetência que não estanca, apenas salpicado com fogachos mediáticos de curto efeito. Ora guinando à reles imitação, ora destruindo a experiência com o cilindro sectário, apontado a quem não tem tempero da casta, ou queda para a abominável bajulação. Pois, para o peditório da tão propagandeada independência partidária, já não restam esmolas. À excepção, claro, dalgumas verrugas em risco de extinção, ainda atreladas à já fatiada, e cansada locomotiva que adia o garantido descarrilamento. Estão ungidos p’lo dom do Rei Midas, mas na forma inversa. Transformam o ouro em pechisbeque, o que em boa verdade, não deixa de ser uma mudança. Por isso, mais vale aproveitar o verão, pois o tempo – como sempre – revelar-se-á como um bom mestre e porventura, um advento para uma nova ordem.
Donato Macedo Lic. em Comunicação