A forma atabalhoada com que se está a engendrar uma saída para o buraco do Lugar de Baixo, porque é disso que se trata a marina que ali foi instalada com uma criatividade orçamental excêntrica, é no mínimo intrigante.

Primeiro, porque é inadmissível que se tenha desterrado mais de 110 milhões de euros, mais do triplo face ao inicialmente previsto, num cemitério de quebra-mares, sem que haja responsáveis pela projecção de uma infra-estrutura marítima numa zona de baixios e sob uma encosta instável onde não foram acautelados os riscos das mais do que previsíveis ocorrências de quebradas e levadias. Depois, que se esconda este hediondo delírio financeiro. Por detrás dos tapumes que foram colocados para afastar dos olhos dos turistas aquele emblemático exemplo de estouro de dinheiros públicos, esconde-se uma concessão de 30 anos a uma sociedade de desenvolvimento que está desde já incumbida de privatizar os direitos de exploração de toda aquela área de perto de 100 mil m2 a quem bem entender.

As soluções criativas que se negoceiam em reuniões secretas nos gabinetes governamentais, para proporcionar vantagens económicas a potenciais investidores privados com o intuito de abafar autênticos falhanços no investimento público e de extrair para os cofres públicos o que restar do meio da lama, não reservam nada de bom. A marina do lugar de Baixo mal fez 10 anos e já se transformou numa galdéria: roubou-nos o dinheiro, não serve para nada, mas já anda a oferecer-se a hoteleiros e a investidores. Já não serve para amarrar embarcações, mas é lá que vamos continuar a amarrar a bóia.

A ideia de criar um espaço de recreio e de lazer para a população no Lugar de Baixo é cheia de boas intenções, mas infelizmente, não se trata nem uma devolução da orla costeira ao direito público, nem de uma ‘mea culpa’ de quem mandou executar uma marina naquele preciso local só para reconciliar-se com a população do concelho, indignada com a gestão danosa que entretanto levara o antigo presidente da Câmara da Ponta do Sol à barra do tribunal. Não tenhamos ilusões. Com esta privatização, o Governo Regional pretende apenas desassorear a marina para por a milhas a sua responsabilidade. Como sempre fez. Mesmo que isso passe por transformar um ancoradouro de 300 embarcações que nunca funcionou num fundeadouro de golfinhos amestrados.

Eu também não tenho nada contra golfinários, mas que sentido faz viabilizar a promoção de espectáculo circense de golfinhos em cativeiro, quando a própria natureza nos exibe no mar, a escassos 300 metros dali, de forma espontânea e surpreendente, um ‘show’ de golfinhos em espécie e número suficientemente generoso ao ponto de ter permitido o desenvolvimento, de forma sustentada, da economia do mar e do sector marítimo-turístico? Se o ‘cluster do mar’ é criar artifícios daquilo em que nós nos diferenciamos, então eu vou ali dar um mergulho e já venho.

Meter golfinhos num golfinário na Madeira é tão absurdo quanto meter delfins num delfinário. Mas há por aí uns amestradores de circo que convivem tão mal com a liberdade destes seres mais iluminados do que eles que só se sentem importantes mantendo-os fora do seu habitat natural, fechados nas jaulas.