Após o apuramento para o mundial de futebol do Brasil, efectivado em circunstâncias que todos nós conhecemos: ausência de eficácia na fase de qualificação e inspiração e desempenho individual num dos jogos do play-off, começamos a viver a presença nesta competição com muita expectativa, diria mesmo, com alguma euforia. De facto, tínhamos razões para “acreditar”. Acreditar é o nosso fado. Possuíamos o melhor jogador do mundo, tínhamos o apoio de um país e a simpatia do país organizador. O dia-a-dia desenrolava-se com um sentimento crescente de que era possível chegar longe, de que este seria o “tal” mundial. Durante uma semana foram-nos chegando reportagens repletas de palavras e frases de que esta participação seria sempre lembrada. As crenças acentuavam-se. E, eis que chegado o dia, um país parava para assistir à dinâmica laboriosa dos “ditos” melhores representantes do futebol luso. Cedo começámos a perceber que a nossa cultura nos atraiçoaria: apresentamo-nos muito crentes mas pouco metódicos. A magia que supostamente caracterizava os nossos executantes sucumbia perante a organização e a competência dos nossos adversários. A nossa fatalidade emergiu perante um país atento e crente. Surgiram imagens que ilustravam a nossa falta de “preparação”, magnificamente ilustrada no comportamento de um dos nossos “talentosos” centrais. A crença é uma tradição da cultura portuguesa. A crença simula a satisfação esperada, projectando-a no futuro. Segundo Fernando Gil “as crenças traduzem-se por comportamentos ajustados, são conservadas pela selecção natural e inscrevem-se no património da espécie...” Durante algum tempo acreditámos e ambicionámos que poderíamos pertencer a um espaço de glória e de alguma grandeza no mundo do futebol, mas a realidade atraiçoou-nos. As circunstâncias e as virtudes não nos permitiram encontrar esse lugar. Assim, fica o sentimento de que algo que nos contenta, e de que nos podemos orgulhar colectivamente, poderia ter acontecido. No entanto, fica também a sensação de que seria necessário sermos mais eficientes e, provavelmente, encontrarmos outros protagonistas. À falta de método e organização resta-nos a “crença” de que para a próxima será melhor.

Jorge Carvalho Professor de Educação Física