«A noite bela cai…E eu dentro dela. Vou a lugares distantes. Pessoas que nunca vi. Aqui estou, Pronto para Servir…» Sem mo propor, passei dos meus sonhos, para aqueles em que me preocupava com os outros, para aqueles outros de quem todos precisamos para viver. Estou a voar sobre a avenida dos Champs-Élysées, em Paris. Lá em baixo desfilam milhares de pessoas a exigirem a paz mundial. Carregam uma pomba de cartão com um quilómetro de comprimento, com as asas e o peito manchados de sangue. Começo a girar à volta deles para chamar a atenção. As pessoas, admiradas, apontam para mim, ao verem-me levitar. Então, peço-lhes que dêem as mãos e formem uma corrente, para poderem voar comigo. Pego num com ternura e levanto-o. Os outros, sem largarem as mãos, elevam-se também. Passeio-me pelo ar, fazendo belas figuras com aquela corrente humana. A pomba de cartão segue-nos. As suas manchas de sangue desapareceram. Acordo, com a sensação de paz e alegria proporcionada pelos sonhos bons. Três dias mais tarde, passeando com os meus irmãos, todos com menos de dez anos, pela mesma avenida, sob o arvoredo próximo do obelisco, vejo um cavalheiro de idade com o corpo coberto de pardais. Está sentado numa das cadeiras de metal oferecidas pela autarquia. Com a mão estendida, imóvel, oferece um pedaço de bolo. Os passarinhos revoluteiam arrancando-lhe migalhas, enquanto outros esperavam a sua vez, amorosamente estacionados em cima da sua cabeça, dos ombros, das pernas. São centenas de aves. Surpreende-me ver passar turistas sem prestar a mínima atenção ao que considero um verdadeiro milagre. Não conseguindo conter a minha curiosidade, aproximo-me do ancião. Assim que chego a um par de metros dele, os pardais fogem todos, refugiando-se nos ramos das árvores. - Desculpe - digo-lhe -, como é possível uma coisa destas ? O cavalheiro responde-me amavelmente: - Venho aqui todos os anos, nesta época. Os passarinhos conhecem-me. Transmitem a recordação da minha pessoa de geração em geração. Eu mesmo faço o bolo que lhes ofereço. Conheço os seus gostos e sei dosear os ingredientes. É preciso ter a mão e o braço quietos e inclinar o pulso para que a massa se veja nitidamente. E depois, quando vêm, deixar de pensar e querer-lhes muito. Quer tentar ? Pedi aos meus irmãos que esperassem sentados num banco, ali perto. Peguei num pedaço de bolo, estendi a mão e fiquei quieto. Nenhum pardal ousou aproximar-se. O bom velho colocou-se ao meu lado e pegou-me numa mão. Os passarinhos acudiram imediatamente e pousaram-se na minha cabeça, nos meus ombros, no meu braço, enquanto outros debicavam o manjar. O cavalheiro soltou-me. Os pássaros fugiram imediatamente. Voltou a pegar-me na mão e pediu-me que pegasse numa das dos meus irmãos e ele na dos outros, formando uma corrente. Assim fizemos. Os pássaros voltaram e posaram-se sem medo nos nossos corpos. Cada vez que o velho nos soltava, os pardais fugiam. Compreendi que, para as aves, quando o seu benfeitor, todo bondade, nos pegava na mão, passávamos a fazer parte dele. Quando nos soltava, voltávamos a ser nós mesmos, humanos temíveis. Não quis perturbar aquele santo. Ofereci-lhe dinheiro. Não quis de maneira nenhuma aceitar. Nunca mais nos voltamos a ver. Graças a ele, compreendi certas passagens dos Evangelhos: Jesus abençoa as crianças sem dizer nenhuma oração, pondo só a mão sobre eles ( Mateus 19.13- 15 ).
Em Marcos 16.18, o Messias incumbe aos seus apóstolos : «…colocareis as mãos sobre os doentes, e eles curar-se-ão ». As misteriosas palavras de São João Apóstolo na sua primeira epístola, 1.1 : « O que eu era desde o princípio, o que temos ouvido, o que temos visto com os nossos olhos, o que temos contemplado, e AS NOSSAS MÃOS PALPARAM no tocante ao Verbo da vida.» Entre o meu sonho lúcido e o homem dos pássaros, havia uma coincidência assombrosa. De certa maneira, no mundo da vigília operavam as mesmas leis dos sonhos. Aquele que tinha chegado ao desprendimento consciente, graças à humildade e ao amor, para ser útil aos outros, comunicando-lhes o seu nível, precisava não só de se ligar a eles espiritualmente, como também corporalmente : a realidade última do corpo humano nunca será objecto de ciência - ; o seu fundo último será sempre um mistério que não se pode exprimir.
Renata Camacho