“A evolução de mentalidade, o gosto pela subserviência, o gosto pelo medíocre não acompanhou o resto do desenvolvimento em todos os restantes sectores na Madeira”, proclamou Jardim no dia da Região. Ainda que num português marcadamente erudito (a minha insuficiência intelectual obrigou a que precisasse de ler três ou quatro vezes para perceber) quis-se dizer – ou eu percebi ou julguei perceber – que tudo correu muito bem excepção feita para essas três ‘coisitas’: a mentalidade, a subserviência, a mediocridade. Que, se calhar e a bem dizer, nem têm assim uma importância tão grande neste mar de ´desenvolvimento’ em que todos vivemos, traduzido numa elucidativa conclusão do Estudo da Desigualdade Económica em Portugal: A Madeira é a região mais pobre de Portugal. O estudo é de 2012 mas não consta que, de então para cá, a tendência se tenha invertido; pelo contrário, se alteração houve foi seguramente para uma maior degradação nas condições de vida, no acesso à saúde, à escola e aos serviços públicos, para a maioria da população. A economia está, muito provavelmente, no patamar mais frágil desde 1974; a resolução de problemas imediatos não encontra resposta, no vazio da governação; as estratégias de futuro são iguais a zero. Assuntos sérios (com repercussão no futuro da oferta económica e turística) e que deviam estar a ser muito atentamente pensados têm, como ‘solução’, pontapés para a frente a empurrá-los para debaixo do tapete – os acidentes mais ou menos graves nas levadas e que têm levado muitos turistas ao hospital ou mesmo à morte; o desastre, financeiro e não só, da marina do Lugar de Baixo desesperadamente à procura de uma pretensa solução que tape a incúria, a imprudência, a teimosia, o oportunismo político e, perdoem-me, a estupidez de querer, porque sim, insistir num erro sem remédio; o caos em que se transformou a nossa costa e o estado do mar envolvente; o abandono que subsiste nas nossas serras, à espera de novos e alarmantes incêndios. São exemplos, apenas. Mas voltemos às ‘coisitas’. – Mediocridade! Longe vão os tempos dos inflamados discursos de verão no Porto Santo, mas ficou a sistemática verborreia reles e ordinária do Chão da Lagoa. E que melhor símbolo de um medíocre que aquele que se escuda no elogio dos sentimentos mais primários, que engana para iludir quem o ouve, que não tem coragem para o confronto de ideias, para a discussão olhos nos olhos? – Subserviência! Para onde foi o povo superior? E que ‘povo superior’ pode coabitar com quem alimenta a dependência e a bajulação, quem ‘compra’ consciências e apadrinha interesses, quem intimida e insulta (‘eleitorado do cachorro’, lembram-se?) para dobrar opiniões contrárias? O que é o pensamento único do ‘único importante’ outra coisa, senão o mais acabado indutor da subserviência? – Mentalidade! Então, afinal, já não exportamos inteligência? Evidentemente que esta exportação foi falsa e enganadora, porque não é possível exportar inteligência, seja lá o que isso for, quando a fasquia do dia-a-dia é baixa e quando se nivela pelo mínimo. Mesmo que passemos vida a falar de ‘qualidade e excelência’, para ocultar a falta de nível e de verdadeiro desenvolvimento. Aliás, pergunto mesmo como é que se pode falar de desenvolvimento quando se combatem e sabotam todas as medidas capazes de aumentar a educação, o pensamento, o saber, a memória, o conhecimento da história, o sentido crítico, a tomada de posição, a intervenção, a participação. Do meu ponto de vista, a mentalidade é justamente um aferidor, um fiel-de-balança, do desenvolvimento. E por aqui, infelizmente, 40 anos depois, ainda estamos muito lá atrás. Mas voltemos a estas ‘coisitas’ para perguntar de quem é a culpa e a responsabilidade por elas serem tão significativas, a ponto de merecerem destaque em declarações do presidente do governo. Ah! Esqueci-me! A responsabilidade e a culpa morrem solteiras. Com os nossos pais, colhemos ensinamentos. Aqui fica, por isso, mais um: «O melhor caminho para uma desculpabilização universal é chegar à conclusão de que, porque toda a gente tem culpas, ninguém é culpado». Porque é que não aprendemos?

Violante Saramago Matos