A Madeira viveu décadas de pleno emprego musical nos hotéis, casinos e outros espaços noturnos com música ao vivo (1939 – 1989). Contratados diretamente pelas entidades patronais, os músicos estavam abrangidos por regulação idêntica às outras profissões. Longos contratos foram possíveis, com ordenados muito acima da média. Da parte dos empresários, os nomes de família estão-lhes associados como por exemplo: Barreto, Blandy, Garton, Dias, Welsh, Borges, Nóbrega, Trindade, Reis, entre outros, que empregaram várias gerações de músicos. O ciclo conhecido como «Noites da Madeira» alterou-se nos anos 90. A introdução dos recibos verdes, transformou cada músico, num profissional liberal, responsável pela sua segurança social acrescentada dos descontos para IRS e IVA. Toca-se ao dia, à vez por semana, e ao lema toca-recebe, juntou-se a outra realidade: não-toca…mas continua a descontar de igual modo para a segurança social e respetivos impostos. Insustentável, se acrescentarmos, a ausência de outros direitos sociais, mesmo no caso de tocar todos os dias e estar abrangido pelos ‘’falsos recibos verdes’’. Alguns músicos resolveram criar as suas empresas, beneficiando de um regime fiscal mais equilibrado. Muitos deles colocaram a empresa em nome de pessoas de confiança ou familiares, passando a ser empregados dessa empresa (beneficiando dos descontos para a segurança social) e essa entidade, passou a ser a prestadora do serviço musical. Outros músicos, a recibo verde, foram contratados por essas empresas…e a realidade alterou-se! Surgem relatos de atrasos de pagamento, subcontratação e ‘’cachets’’ cada vez mais baixos. Situação delicada! Para muitos dos protagonistas, inqualificável e sem perspetiva. Se a fidelização musical de um ambiente, resultasse apenas do profissionalismo e talento, as noites musicais teriam na sua génese todas as regras e critérios de uma boa estruturação. Na prática o que se nota é a feudalização dos hotéis ou cadeias hoteleiras. Fechadas em coutadas de músicos-empresários (que funcionam como agentes musicais), são autossustentadas, rodando os mesmos músicos por diferentes espaços. Por conseguinte, repetem tanto o repertório como o estilo de tocar. Sendo a animação musical um dos pilares da noite madeirense desde sempre, a aposta recente em ‘’Chefs Michelin’’ ou em alta certificação de serviços, não surte o efeito desejado junto dos turistas se, a música que se ouve não tiver qualidade ou não for diversificada, nos seus géneros e protagonistas. Através da gastronomia de excelência os hotéis têm marcado a diferença entre si. Já na música, comprada em ‘’pacotes’’ de ‘’Bom e Barato’’, tem sido a mesma em todo o lado, confiada que está a um grupo restrito de angariadores musicais. Sugere-se: contrato direto entre empregador e músicos. Incentiva-se ainda os empregadores, a contratar orquestras residentes em vez de músicos saltimbancos. Os espaços noturnos voltarão a ter qualidade. Os melhores músicos, orquestras e projetos ocuparão o seu lugar - o palco!

Vítor Sardinha Músico