Nunca fui ao Chão da Lagoa. Quer dizer em dia de Festa do PPD, que já por lá passei muitas vezes. Costumava responder isto muitas vezes, deste lado do Atlântico, quando questionada sobre os excessos de linguagem e toda a fantochada habitual na festa anual do PSD-M. Olhavam-me com a estranheza com que se olha para as ovelhas que vão em sentido contrário ao rebanho. “Mas então a Madeira em marcha não vai toda ao Chão da Lagoa?”, insistiam. Lá explicava que não, que deveria haver outros exemplares com este exotismo. (E antes de avançar que fique claro também nunca fui à festa de nenhum outro partido regional, nem em trabalho calhou).

E até agora sempre vi isso mais como um aspecto positivo que negativo. Até este ano que o presidente do Governo Regional e ainda líder do PSD-M levantou a hipótese, vaticinado quase o fim do Mundo, de a festa acabar com o seu sucessor. Já o tinha feito em relação ao Jornal da Madeira, em jeito apocalíptico: Quem não mantiver periódico nas unhas do Governo para o instrumentalizar a seu bel-prazer está condenado às chamas das derrota (quase eterna), terá dito.

E hoje digo que fiquei com pena de não ter ido ao Chão da Lagoa. E confesso que este ímpeto tem qualquer coisa de banda do Titanic que continua a tocar e o barco afunda. Era um bocadinho deste espectáculo que eu queria ver, desculpem a franqueza. É que o PSD-M foi uma autêntica escola de cidadania para mim. Mais do que isso de ciência política.

Lembro-me de ver Alberto João Jardim à porta da igreja depois da missa, colou-me um autocolante no vestido de ganga. Era laranja, eu tinha cinco anos e gostei daquele presente. Foi um vizinho que nesse dia, mais tarde, mo arrancou da lapela para dizer: “Este não”. Foi uma tristeza, na altura, confesso e ultrapassou a minha compreensão. Anos mais tarde, o rasgador de autocolantes tornou-se num dos mais entusiastas abanadores da bandeirinha laranja. É assíduo na festa anual, cujos bilhetes do horário são vendidos a preços de saldo, numa receita já usada no JM, mas cujo custo real sai dos nossos impostos e é canalizado através do vergonhosos jackpot parlamentar. Aprendi muito com ele, na verdade.

É este castelo de cartas de oportunismo que está em fim de festa, que tenho pena de não ter visto ao vivo. A festa do Chão da Lagoa não poderá continuar a ser o que tem sido, ao contrário do que berra Jardim na serra, porque mesmo que o líder tenha uma pala forrada a capas de jornais sem-vergonha à frente dos olhos e os abanadores de bandeiras estejam encegueirados com o laranja ainda viçoso do pano, o que foi não volta a ser.

Sandra Cardoso