A entropia, na sua essência, é a tendência que os fenómenos físicos têm para se degradarem para níveis cada vez menos complexos de organização, teoricamente até à imobilidade absoluta de um Nada… O oposto da fluência do vivente. Se, operando no Universo, não existisse uma força que contrariasse tal impulso nulificador, Nada “existiria”… Em vez de Algo existir e fluir… Algo como acontece em mim, e no prezado leitor. Essa força do Algo constitui o acontecer da sintropia. Tal designa a força, ou «elán vital» que possibilita que, contrariando essencialmente a entropia, fenómenos ascendam a níveis cada vez mais complexos e estruturados de organização… Até ao acontecer da Vida e da Consciência. O fenómeno sintrópico da Vida constitui um milagre, neste Universo físico dominado por leis férreas, que favorecem o predomínio caótico da entropia. Como puderam a Vida e a Consciência acontecerem então, em tal cenário «fatal»? A resposta poderá residir antes, e para além, do ‘Big Bang’: do acto de criação deste nosso Universo particular. De acordo com o inquebrantável princípio ontológico do ‘Ex nihilo nihil fit’, o Big Bang não pode ter sido o início absoluto de tudo, e pode ter sido desde alguma realidade prévia, e causadora do Big Bang, que as forças sintrópicas tenham vindo a emergir neste Universo particular. Tal hipótese não é nada que os antigos órficos e gnósticos já não intuíssem… O fenómeno sintrópico da Evolução ascensional para níveis noéticos cada vez mais co mplexos não parará pela humanidade actual, e a sua «civilização» dominada pelo Desejo de Poder e de lucro, pela entropia do consumo e do espectáculo, em suma, do Desperdício… A humanidade tem actualmente a opção colectiva de poder escolher, entre a manutenção do status quo, do caminho entrópico da extinção e da involução, e um caminho ético, que costumo designar de ‘órfico’ e ‘biocêntrico’, de sintropia ascensional. Outros, que já realizaram plenamente esse itinerário evolutivo, acenderam faróis, em praias longínquas, para orientar os nautas humanos na sua tempestuosa travessia nocturna. «Tantas luzes acesas, e ninguém em casa…»

Miguel Santos Cooperante da Cooperativa “Espaço às Artes - Cultura Ponto Zero”