Tornou-se um número de circo as sinergias que a fileira de candidatos à sucessão de Jardim na presidência do PSD-Madeira gastam a anunciar projectos, ideias e pretensões para o futuro da Madeira, quando todos eles tiveram, e ainda têm, a soberana oportunidade para concretizar o que de bom hoje propalam. Sobretudo, aqueles que estão a ser pagos para governar a pensar nas pessoas e não para governar para a campanha social-democrata envaidecidos no namorar aos militantes do partido. Já são muitos anos a vê-los deixar para amanhã o que podiam já ter feito ontem.

Há anos que se adia na Madeira a moralização da vida política. Há anos que se controla a liberdade de pensamento individual e se cultiva a obediência canina na administração pública. Há anos que a domesticação dos serviços públicos transformam funcionários em máquinas amorfas que deixam de ‘funcionar’ se o botão do ‘enter’ avariar. Queremos serviços públicos a trabalhar para as pessoas e não a servir os interesses e as vontades dos chefes. Queremos uma administração pública célere, sensível mas também justa e que trate os seus cidadãos todos por igual. Queremos um governo sem medo do futuro, cumpridor, responsável, interventivo e que dê provas todos os dias que merece a confiança de quem o elegeu. Queremos um Parlamento descomprometido, que fiscalize a acção executiva e corrija as leis a pensar no interesse colectivo e nos anseios de uma Região. Como se esta domesticação dos órgãos públicos e de soberania não fosse uma herança que nos é deixada pela elite que hoje se apresenta como candidata à liderança do PSD-Madeira sem assumir a respectiva quota de responsabilidade pelo presente.

Não é, portanto, de admirar, que perante esta megalomania no campo ideológico, este ‘brainstorming’ de projectos de ideias para o futuro da Madeira com uma invulgar pluralidade e diversidade de arrojados contributos discutidos na praça pública – algo inédito e que nunca se viu em mais de 30 anos de governação de um partido de pensamento único – tudo o resto é um perigoso deserto vazio. Não é de admirar, por isso, que o destino de todos nós nos seja colocado desta forma, dando já o devido desconto do sol na moleirinha e dos ‘capri-sones’ do Chão da Lagoa: o futuro da Madeira depende do que ocorrer no PSD. Que Jardim vai embora mas “a luta continua”. Sai o líder histórico, fica a profecia apocalíptica. Ou ganha o eleito de Jardim ou será o fim. Ou o PSD ou a desgraça. Convenhamos que aquilo já não cola, nem tem graça. A velhinha estratégia de propaganda popular do amedrontamento social continua a ser a arma até na hora da saída do líder histórico que governa há 40 anos e que se despede perante os seus cada vez menos fiéis como um messias: “vim de vós, saio no meio de vós, quero terminar no meio de vós”. Amén. Pois que assim seja. Venha então o dia do julgamento final.

Alberto João Jardim tem o mérito de parte do desenvolvimento da Região mas cometeu o pecado capital de querer governar tanto que se desgovernou. Sem que ninguém, dos que hoje enchem o peito, ousasse desafiá-lo. O medo amedronta os fracos e desafia os fortes. Tarde de mais talvez. Poupem-nos, portanto, as frases messiânicas e os cenários apocalípticos. Ninguém que “vem do meio de nós” entrega o que é de todos em troca da conservação do poder que teme perder. Ninguém que “vem do meio de nós” se proclama, a si e aos seus condescendentes, dignos de acumular pensões com remuneração. Ninguém que “vem do meio de nós” esconde dívidas... a nós próprios. E quem deseja mesmo sair e terminar no meio de nós não pode lavar as mãos, deixar a conta por pagar e sair pela porta grande, imune à Justiça.