Os anglo-saxónicos têm algumas rotinas interessantes. Uma delas são as chamadas “entrevistas de saída” (“exit interviews”). Estas entrevistas fazer parte de processos de melhoria organizacional e acontecem normalmente quando um projeto termina ou quando um funcionário, um aluno ou um membro de uma organização a abandonam. Exemplos como as entrevistas de saída fazem parte de uma cultura muito diferente da nossa. Em Portugal o trabalho é para a vida, a escola e a Universidade tal como os restantes serviços sociais um direito adquirido. A mobilidade no mercado de trabalho é reduzida. Neste contexto a mudança é a exceção e quando acontece é normalmente um trauma e não uma consequência natural da vida. Quando alguém é promovido, muda de emprego, cidade ou projeto é porque alguma coisa correu mal. Tudo funciona num nível impressionante de suspeição, cada funcionário é um malandro, cada chefe é um corrupto vendido, cada cidadão é um bandido. Neste clima a inveja e a intriga reinam. Há pouco espaço para o mérito, a responsabilidade, o espírito de serviço e o trabalho de equipa. Ou seja, não há espaço para aprender com os erros e para melhorar. Esta questão é transversal à nossa sociedade. Mesmo nos sectores que são altamente competitivos. Veja-se o exemplo do futebol. A nossa seleção saiu do mundial com um resultado medíocre. Temos o melhor jogador do mundo e vários jogadores em clubes de topo. Temos uma escola de treinadores de muito alto nível (só no mundial são três) e alguns dos melhores especialistas do mundo em treino, medicina desportiva e até dirigismo, incluindo peritos emnegociatas, influências, comentários e tudo o que qualquer atividade profissional de topo exige. Correu mal outra vez. Tal como tinha corrido na Coreia do Sul ou no México e na África do Sul. E que fique claro - eu sou um fervoroso adepto de futebol do meu Porto e da seleção. Infelizmente vi o jogo com os EUA rodeado de americanos e fiquei pior que estragado. Mesmo assim não consegui conter uma explosão de raiva e alegria quando o Varela marcou no último minuto. Por instantes os americanos pensaram que tinham um talibã infiltradopronto para a jihad. Mas era só um Português desesperado que saiu rapidamente do bar com vontade de invadir o Iraque. O mesmo que alimentou uma esperança irracional até ao jogo do Gana. Nos últimos dias temos assistido a inúmeras discussões e interpretações sobre o que correu mal. Eu pergunto-me se alguém na estrutura organizativa da seleção nacional (que não tenho dúvidas é altamente profissional) terá feito uma “exit interview”? A ver pela forma como se repetiram de forma infantil tantos erros como na Coreia parece-me claramente que não. E os adeptos e a comunicação social exigem ou sequer dão espaço para que um reflexão destas aconteça? Penso que não. Pelo menos nos poucos debates a que assisti não vi nada disso. Vi pelo contrário muitos ajustes de contas, muitos culpados, muitas teorias da conspiração. Portugal no seu melhor. Muito pouco de análise construtiva e muito pouca racionalidade. O Ronaldo manda na seleção? Tem muita influência mas não me parece que tenha sido responsável por tão mau planeamento e preparação. O Ronaldo é que escolhe os jogadores? Também não me parece. A qualificação aconteceu sempre no fio da navalha e não deu tempo nem espaço para integrar novos jogadores que pudessem efetivamente ser selecionados. A eliminação de Portugal não foi culpa do Paulo Bento, muito menos do Ronaldo. Foi uma consequência da nossa sistemática falta de planeamento e preparação. No futebol como em todas as outras áreas da sociedade portuguesa o problema não está nos bodes expiatórios que nos entretemos a passar de bestiais a bestas. Portugal tem um sério problema de falta de organização, de escolha e critério. O facto de esporadicamente um Eusébio, um Figo ou um Ronaldo conseguirem disfarçar as coisas ao ponto de nos fazerem sonhar é a exceção e não a regra. Eu por mim agradeço ao Ronaldo por ter feito o impossível e nos ter trazido ao Mundial para alimentar um sonho que durou pouco. Os dois jogos com a Suécia foram incríveis, mas foram apenas exceções dificilmente repetíveis. Se alguém perdeu alguma coisa neste mundial foi o Ronaldo. Perdeu provavelmente a última oportunidade de se poder tornar imortal como Pelé, Maradona ou Zidane. Ficará na história como um grande jogador, num lote invejável onde estão o outro Ronaldo, Platini, Beckenbauer, Cruyff, Eusébio, Di Stefano e pouco mais. Penso que mais do que ninguém o Ronaldo sabia perfeitamente isto. Só assim se justifica que se tenha sacrificado a jogar lesionado. Não para ganhar mais uns milhões em publicidade e notoriedade, que ele não precisa. Mas para ganhar o estatuto de ser um dos melhores de todos os tempos. O Ronaldo perdeu muito mais com este desaire do que a Espanha, a Itália ou a Inglaterra, do que Xavi, Iniesta,Balotelli ou Pilro. Pior ainda poderá ver Messi tornar-se imortal se ganhar o mundial. Poderá ainda ver Neymar ou mesmo um inesperado James começarem a disputar-lhe a liderança. Ninguém como Ronaldo tinha tanto a perder neste Mundial e por isso não alinho nos que acham que tudo isto se resume a uma cabala. Simplesmente não faz sentido. É apenas mais um exemplo da mesquinhez portuguesa que se revolta contra os poucos que se conseguem afirmar e neste caso ao mais alto nível. Ronaldo foi como todos nós vítima da falta de planeamento, do improviso, e do desleixo que é inaceitável a este nível mas que continua a persistir na nossa sociedade e em coisas muito mais importantes do que o futebol. Não faço ideia se o governo ou a troika fizeram alguma “exit interview”. Mas receio que não. A intervenção da troika resultou? Parece evidente que não. A nossa dívida está em níveis recorde acima dos 130%. O nosso crescimento continua frágil sem sustentabilidade. A economia continua a rastejar à espera de uma retoma do consumo. A reforma do estado nunca existiu e continua adiada. Apesar dos enormes sacrifícios continuamos na mesma. Tal como a nossa seleção a repetir os erros e a (des)esperar por um qualquer Ronaldo em que possamos depositar todas as esperanças ridículas para depois crucificar ao primeiro falhanço. Não tenho nada contra pessoas de qualidade, chamem-se António Costa, Rui Rio ou Cristiano Ronaldo, mas não acredito em providências muito menos divinas. O que precisamos é do mínimo de planeamento e organização para que as pessoas de qualidade possam ter alguma hipótese de sucesso. Só assim no próximo Europeu ou Mundial, tal como no próximo governo poderemos ter alguma hipótese. * Professor Universitário Presidente do Madeira-ITI, Carnegie Mellon Portugal
Nuno Nunes*