Os problemas da sociedade actual requerem muito mais do que as receitas tradicionais, que como se sabe navegam entre o pragamatismo de quem tem de tomar decisões e de assumir custos e o irrealismo dos vários tipos de corporativismos. Há que surpreender e sair fora dos cânones. Se a sociedade está sujeita a novos fenómenos, que trazem consigo novos problemas, há que contrapor com ideias igualmente desconcertantes e imprevisíveis. Uns mais do que outros, estamos formatados para as mesmas análises e para os remédios de sempre. Por isso, sempre que surge algo fora do que é habitual, há que ter poder de encaixe e a tolerância suficiente para, pelo menos, não recusarmos sem ponderar. Por uma série de factores, constata-se que há menos postos de trabalho e sobretudo cada vez menos empregos ‘vitalícios’. Então, que tal estruturar as empresas e departamentos públicos para semanas com apenas 3 dias de trabalho, eventualmente com horários assumidamente mais prolongados, abrindo espaço nos restantes dias para outras pessoas terem também um emprego nas mesmas condições? Revolucionário, não? A ideia foi lançada a semana passada no Paraguai, pelo mexicano Carlos Slim, o empresário que domina o negócio das telecomunicações no seu país e que já vai bem lançado noutros. O senhor Slim, que nalguns ‘rankings’surge como o homem mais rico do planeta, até já começou a experimentar algumas das suas novas ideias nalgumas das suas empresas. À partida, mesmo em realidades como a nossa – em Portugal continental ou na Madeira – a sugestão arrojada do homem das telecomunicações mexicanas teria boas probabilidades de vingar. Bastaria que, no incontornável processo de discussão, patrões e sindicalistas aceitassem sair do habitual registo casmurro e irredutível. Em muitas classes profissionais prolongar o horário da jornada laboral não é nada de especial; bastaria formalizar aquilo que já é na prática. Depois, preparar os serviços e as empresas para turnos semanais de 3 a 4 dias não se afigura nada de descomunal, sobretudo se essa redução implicasse a entrada de outros profissionais para os restantes dias em aberto. Em termos sociais, colocar-se-ía um travão neste ciclo infernal em que mal se consegue parar para respirar ou apreciar as coisas boas da vida. O salto qualitativo de dividir a semana em duas partes quase iguais para trabalho e lazer traria enormes vantagens, até para a economia. Com mais tempo disponível, mesmo sem mais dinheiro, haveria mais disponibilidade para gastar ou experimentar outras coisas. Que significariam, em última análise, mais empresas e mais empregos. O senhor Carlos Slim também sugere que os profissionais se reformem mais tarde, dado o gradual aumento médio da esperança de vida. Aí está mais um tema que as pessoas não deveriam encarar com o habitual cepticismo. Estas e outras ideias arrojadas são contributos importantes para os novos desafios, que já não podem ser solucionados com as receitas do costume. Temos disponibilidade mental para sair do habitual ram-ram?