Nem sempre podemos ter aquilo que queremos, mas apenas aquilo que podemos ter. A Madeira teve tudo aquilo que queria e o que não podia. E se hoje culpamos quem nos governa e governou pelo estado de coisas a que a região chegou, foi quem nos governou que habituou mal toda uma plateia sedenta de coisas fáceis.
No plano desportivo, foi assim que o Rali Vinho Madeira andou nos mais altos patamares desportivos, porque havia dinheiro para gastar. Foi assim que a região organizou eventos internacionais e foi assim que quase todas as modalidades colectivas e individuais conquistaram títulos nacionais e internacionais. Foi assim enquanto houve dinheiro fácil. Hoje tudo escasseia, até porque, em tempo oportuno, não se soube optimizar e dar prioridade ao que interessava. Agora temos apenas aquilo que podemos. E já é muito bom!
Neste contexto, e por mais voltas que se queira dar, por mais se queira amenizar a dor, este será uma das piores edições do Rali Vinho Madeira. Não só porque não tem pilotos internacionais, fundamentalmente cotados – e são eles que arrastam o interesse dos media internacionais - mas porque o rali volta a estar fora dos palcos europeus da modalidade. Que vai continuar a levar muita gente à estrada, isso vai, nem que seja porque a tradição ainda se mantém, desde a noite do Santo até ao arraial dos Lameiros. Mas, no plano desportivo hoje a prova perdeu prestígio e interesse, devendo-se louvar, contudo, o esforço da organização em manter o rali de pé, não regateando a marca, à espera de melhores dias, e o esforço da nossa RTP na “maior cobertura” do pior rali de sempre na era moderna.
Isto vale para o resto, para todo o desporto da região, que agoniza enquanto não chega a cura que o livre da morte anunciada. E vale até para o futebol profissional, mas aqui com uma ressalva importante: são apenas ainda os clubes que disputam a I Liga profissional do nosso futebol que conseguem gerar receitas, através da televisão e da venda de jogadores, para além do dinheiro que possa vir do erário público, cada vez menos e todo ele devolvido, com juros, em impostos pagos na região. E, assim, encontrando uma forma de passar pelas dificuldades.
Mas, também por isso mesmo, os adeptos de Marítimo e do Nacional (quiçá, numa nova realidade do nosso futebol, que vai até ao Benfica, mesmo que o FC Porto pareça ser uma excepção) terão de habituar-se a uma nova filosofia, mesmo que a mesma possa ser diferente entre os dois clubes. O que nem tem invalidado que pontualmente as duas equipas consigam uma participação europeia, há duas épocas com o Marítimo, esta com o Nacional.
Se os adeptos do Marítimo olham, este ano, com desconfiança para um plantel que perdeu referências importantes e tem um novo treinador, novo na equipa e estreante como líder principal, os adeptos do Nacional não terão muitas razões – mesmo com uma equipa mais consolidada e o mesmo treinador – para lançar foguetes antes da festa. O tempo o dirá!
Mas, como escreveu Allan Kardec, a vida nem sempre é como sonhamos, mas nem sempre sonhamos o que queremos viver.
Emanuel Rosa