Raul Máximo da Silva A polémica recente admissão da Guiné Equatorial como membro de pleno direito da CPLP, não só pelo regime político vigente mas também pelo facto de ser um país de língua oficial castelhana onde não se ensina a língua portuguesa, deixa em aberto a hipótese de, no futuro, outros países de língua oficial não portuguesa poderem ser convidados a integrar a CPLP, mesmo que com o estatuto de observadores.

Um dos futuros membros da CPLP poderia ser o Vietname. E porquê ?

Desde o período da grandes navegações portuguesas até ao século XVIII, a língua portuguesa foi utilizada na comunicação entre os europeus e os povos das regiões costeiras da Ásia, tendo deixado influências no modo de vida dos povos que, com a mesma tomaram contacto.

Assim foi na Cochinchina, região do sudeste asiático onde actualmente se localiza o Sul do Vietname, país ligado à História de Portugal pelo facto de ter sido no delta do rio Mekong que, em 1560, Luis de Camões salvou a sua vida e os manuscritos dos Lusíadas, após o navio que o transportava de Macau para Goa ter naufragado.

Todavia, da relação histórica entre Portugal e o Vietname, destaca-se o papel do padre jesuíta português Francisco de Pina na romanização da língua vietnamita e na elaboração do Dicionário Anamita-Português-Latim, ambas concluídas pelo seu discípulo francês Alexandre de Rhodes, após a sua morte.

Francisco de Pina chegou à Cochinchina em 1585 e aí permaneceu até à sua morte em 1625 na cidade vietnamita de Da Nang.

No Vietname, país com uma cultura díspar, Francisco de Pina, através dos contactos com os habitantes locais, levou a cabo a tarefa pioneira de romanizar a língua escrita do Vietname, até então baseada em ideogramas de origem chinesa. que viria a concretizar-se no Quoc Ngu ou Língua Nacional assim como no desenvolvimento e adopção oficial de um registo romanizado e distinto do chinês.

Desde então, a língua vietnamita embora com acentuação e sintaxe particulares escreve-se com os mesmos caracteres utilizados na língua portuguesa, organizados em torno de um alfabeto.

O Vietname não é um país de língua oficial portuguesa mas o Instituto Camões tem um Leitor de Português na Universidade de Hanói e jovens vietnamitas estudam a língua de Camões em Portugal.

O Vietname não integra o grupo dos grandes produtores de petróleo mas é o segundo produtor mundial de café e tem recursos naturais cobiçados pela China.

Cabe a Portugal a iniciativa de propor o endereçamento de um convite ao Vietname em nome do passado histórico que une ambos os países.