Como se costuma dizer, uma mentira repetida com frequência pode parecer verdadeira aos olhos de muitos. Vejamos um exemplo paradigmático, isto no âmbito da saúde regional: o documento designado “Autonomia XXI”.

Este escrito, da responsabilidade de figuras de relevo do actual PSD Madeira que nos governa, propõe, entre outras ideias, a construção de um Novo Hospital. Talvez tenham a vergonha de dizer aquilo que, realmente, lá escreveram: “Deve ser elaborado um estudo mais profundo sobre a localização, não rejeitando a actual localização, desde que seja dada prioridade à reabilitação do actual imóvel”, isto é, pode não haver, segundo a Autonomia XXI, qualquer novo hospital mas somente retoques no actual. Permitam-me designar isto como uma fraude política, mais uma, muito ao estilo do jardinismo.

Os exemplos de incongruência repetem-se ao longo do texto. Querem um “Programa específico para a área deOncologia” mas estes mesmos mentores votaram contra a proposta Via Verde do doente oncológico. Querem “Rever a Convenção Médica” mas o PAEF, que assinaram, previa que o acordo fosse aperfeiçoado até ao fim 2012. Até agora!

Dizem-se solidários com os enfermeiros mas espetam um prego no Enfermeiro de Família pois os seus cuidados devem ser “por zonas geográficas e não por agregados familiares”. O mesmo pretendem fazer ao Médico de Família, transformando-o numa espécie de Médico de Localidade. É de todo lamentável estavisão sobre os Cuidados de Saúde Primários e sobre a sociedade baseado na família.

Dizem que querem “Incrementar a relação do serviço público com os sectores privado e social” quando, nos últimos anos, “apedrejaram” os prestadores privados da saúde, colocando os doentes numa ponte cujas margens são, ou as listas de espera intermináveis do nosso hospital ou, o pagamento integral dos cuidados de saúde.

Mais, dizem agora querer “mecanismos de avaliação permanente de desempenho das unidades de saúde” quando, pasme-se, rejeitaram a adaptação da Lei nacional sobre a transparência na saúde e quando os números das listas de espera no nosso hospital permanecem secretos, ao contrário do SNS (continente) e Açores, apesar de alguns dados serem pontualmente descobertos pela comunicação social.

Dizem querer “Promover a participação dos parceiros sociais ligados à saúde” mas foram, nestes últimos anos, o braço político armado na perseguição aos que,publicamente,alertaram sobre o rumo da saúde regional. Mesmo inúmeras pessoas do PSDque, com ideias e méritos reconhecidos, expressaram essa preocupação, sofreram o mesmo destino.

Em resumo, estes senhores do Neo-PSD, nada querem mudar, somente trocar a cor do papel de embrulho das suas propostas, que passa de laranja a azul rosado... Na verdade, este “delfinato”, habituado a décadas de atitudes, comportamentos e políticas de desrespeito pelas ideias da oposição, de apoios estatais a interesses próprios e de ostracização da sociedade civil, quer, agora, mudar subitamente. Dizem sim, que mudam, mas na verdade só mudam o discurso e só porque as sondagens dão-lhes 32% e a maioria absoluta precisa de 46%!

Mário Pereira