Escrever sobre política lembra-me uma frase brasileira: - “em rio de piranha, jacaré nada de costas”.
Apesar disso, sendo orgulhosamente militante de um partido - e tendo dado a cara por ele em inúmeras situações -, não me posso ausentar, num momento crucial da sua história que é também - e aqui não há coincidências - um momento de encruzilhada da própria Autonomia.
Tenho observado atentamente o processo de sucessão no PSD-M. O pluralismo agrada-me e deve ser encarado com naturalidade. O debate, quando livre, é um processo lógico. A renovação é naturalmente necessária, até porque os tempos são outros, desaconselhando a últimas três quadras da “Construção”, de Chico Buarque.
Na linha de partida para a “corrida” à liderança do PSD-M apresentaram-se quadros qualificados. Não vou, aqui, discutir méritos e deméritos de cada um, pois entendo que numa formação partidária existem regras e que essas regras (às quais deve juntar-se a regra do bom senso) mandam que os assuntos internos sejam discutidos internamente.
Talvez por ter essa visão daquele que deve ser o funcionamento de um partido não hesite, do alto dos meus galardões de militante de base – existirão pessoas mais importantes do que os militantes de base, aqueles que dão a cara nos bons e nos maus momentos? – em apelar, a todos os candidatos, para que se preocupem com o eleitorado, com a resolução dos problemas dos madeirenses. A luta interna não pode ofuscar aqueles que devem ser os objectivos do PSD-M, ou seja, responder eficazmente aos desafios que a sociedade impõe.
O PSD-M não pode, de maneira alguma, tornar-se uma simples formação burguesa, perdendo o pendor revolucionário que permitiu mudar as condições de vida na Região, num espaço de apenas três décadas. Tem, obrigatoriamente, de andar na rua.
Vivi o privilégio de ter sido candidato a uma Junta de Freguesia. Lidei com os problemas reais. Dei o meu melhor para encontrar as soluções necessárias. Percebi, por exemplo, que para a população das Lajes, no Imaculado Coração de Maria, poucas coisas eram mais importantes do que a chegada de um autocarro (pelo qual, de resto, ainda espera, apesar das prometidas mudanças).
Resumidamente, andar no terreno, lidar com as pessoas, ouvir mais do que prometer, perceber o que faz falta, perceber que os planos, muitas vezes bem elaborados, em abstrato, pecam exatamente por excesso de abstração (não se podem desenhar sociedades sem pessoas dentro) deveria ser obrigatório para todos os candidatos.
Tenho o prazer de andar na casa dos trinta anos. E o desconsolo de ter, entre os meus amigos mais próximos, gente desempregada, gente com empregos precários, gente que tarda em encontrar um caminho. Sinto, em primeiro lugar por amizade e só depois por fazer parte de um partido político, que tenho o dever de ouvir, que devo ajudar quando posso, nem que seja com uma palavra de consolo.
Não sou candidato a líder de nada. Se fosse, procuraria ir ao encontro desta gente. Caminharia para junto de uma juventude que precisa de respostas. Que se vai embora porque sente não ter nestas ilhas, tão no meio do mar, um porto seguro. Parece paradoxal, mas só o é na forma como aqui está escrito.
Não reduzo os problemas aos jovens desempregados e precários. Mas como é natural, exemplifico com aquilo que conheço melhor. Para dizer que a discussão sobre o futuro do PSD não pode, nem deve, resumir-se ao interior do partido e aos seus militantes.
Não defendo “eleições à Seguro”, no fundo, caminhos para serem alegremente trilhados por caciques. Mas defendo que o debate seja aberto à sociedade, porque o futuro líder social-democrata terá fortes hipóteses de ser Presidente do Governo Regional da Madeira.
Não, o caminho a seguir pelo meu partido não pode ser o de fechar-se sobre si próprio. O caminho é o da abertura. Ou antes, da reabertura.
Não podemos lutar por uma nova Constituição, por mais Autonomia, por mais direitos para os madeirenses e para os portosantenses se nos esquecermos de resolver os problemas que por ora se põem a quem escolheu viver nestas ilhas. Os dois processos devem ser paralelos. Um não vive sem o outro.
O caminho a seguir não pode ser, igualmente, o do terrorismo autodestrutivo. Nada, a não ser o próprio PSD-M, impedirá o partido de vencer as Eleições Regionais de 2015. Desde que o clima seja pacífico, que a discussão seja inteligente e com base em argumentos, evitando ataques anónimos e que colocam em causa a honra de pessoas e de instituições, sejam esse ataques proferidos nas redes sociais ou em outros fóruns.
Num período eleitoral, os excessos acabam por ser naturais, mas não haverá “excessos excessivos”, passe o pleonasmo? Não estaremos condenados – felizmente condenados, diria eu – a estar todos juntos, passadas as eleições internas? Não será importante evitar as feridas impossíveis de cicatrizar?
Enquanto militante de base e ex candidato a uma junta de freguesia, continuarei a subir às Lajes e a reclamar o autocarro. Continuarei a percorrer a localidade, com prazer. Continuarei a fazer o meu trabalho.
Peço (e repito a expressão), do alto dos meus galardões de militante de base, contenção aos candidatos. Contenção e, sobretudo, atenção àquilo que os madeirenses têm para dizer.
Luís Filipe Santos