António Ferreira Solidão não é solidão. A tautologia serve para indicar a existência de várias solidões, destaco duas: a solidão por opção é uma benção e a solidão forçada um tormento. Quando temos opções, sentimos-nos bem por estarmos sozinhos, a conspirar contra o nosso destino ou a levar os nossos desejos à concretização. Se for forçada, a solidão recrudesce todos os mais insignificantes receios. O medo ganha forma e em vez de cócegas, deixa feridas que só a partilha e amizade podem cicatrizar. Quero sublinhar mais um tipo de solidão, a povoada. A solidão - nenhuma destas - cura a solidão.

A democracia - repetindo a figura de estilo - não é democracia. Convenhamos, a nossa democracia está enferma. Podemos repetir com ligeireza: é a classe política! A malfadada classe política: indigente, pueril, oca. Não venho em defesa “desta” classe política. Mas temos que reflectir como aqui chegamos, ou melhor, como “esta” classe política chegou ao seu posto - e aqui incluo governo e cúpulas partidárias. Como eles chegam lá, e o que fazem quando lá chegam, tem de ser repensado. Não quero usar a palavra sistema, prefiro criticar o modelo. O nosso modelo democrático é representativo. Demasiado. Pouco participativo, inclementemente parco na participação. Depois, não há mecanismos de monitorização: como apuramos a qualidade de um governante? Como medimos a eficácia de um governo em funções? Onde está a auditoria social objectiva, isente e limpa da “exortação ideológica”?

Não quero lançar maus agouros, é difícil não louvar a democracia. Vejamos a democracia, vejamos a solidão. A forçada é um inferno, a opcional, o céu. A solidão opcional dá-nos a hipótese de estar só mas temos várias portas para curar as maleitas da solitude. Numa democracia forçada, votamos e depois não nos temos para onde nos virar - a não ser esperar pelo próximo escrutínio. Não podemos ter uma representatividade impingida, devemos poder lidar com os nossos representantes, escrutinar o seu trabalho e valor. Idealmente, sem o véu ou fumo das preferências ideológicas. Um bom político é um bom político, à direita ou à esquerda, do partido A ou B. Não podemos continuar a forçar o actual modelo democrático, é um erro permanecer neste labirinto. Não sou contra os partidos, ou contra “esta” classe política. É o modelo que está enfermo.