1 - O presidente do Governo produziu esta semana mais uma daquelas suas ofensas que marcam a longa descida do ainda mais longo final de mandato. Depois da Maria dos Anzóis e do Manuel das Couves, depois dos cachorros, depois dos patas rapadas, depois dos ignorantes e de outros mimos com que tratou os madeirenses que dele discordam, Jardim chamou esta semana vilões aos que pediam uma alteração do acordo com o Estado sobre o subsídio de mobilidade. Assim mesmo, com as letras todas e com toda a certeza misturada com a arrogância de quem acha que sabe tudo, mesmo quando nem sabe do que fala.

No caso das viagens aéreas, o presidente pensava que ofendia apenas os seus adversários internos ou políticos de outros partidos, mas foi muito mais além. O presidente do Governo acabou por incluir entre os vilões a sua secretária do Turismo e Transportes, cujos serviços defendiam o mesmo que os outros vilões. E o mais curioso: horas depois, o próprio presidente do Governo enfiava um gigantesco barrete de vilão com orelhas até aos pés ao pedir exactamente o que pediam os outros políticos, quer de outros partidos, quer do seu próprio partido.

Entretanto, no meio de tanto vilão, a verdade é só uma: a Madeira, na sua habitual estratégia folclórica, foi ultrapassada pela serenidade e visão política dos Açores.

2 – Não sei o que pensam os principais dirigentes políticos da oposição na Madeira. Salvo uma ou outra excepção, parecem-me distraídos com a luta política no interior do PSD. E então, julgo eu, assistem na primeira fila, caladinhos, a apreciar a guerra, apontando, uma vez ou outra, para o mau exemplo daquelas brigas. Esquecem que esse seu silêncio, mais do que favorecer o espectáculo de que procuram tirar partido, acaba por mostrar aos cidadãos que enquanto uns brigam outros deixam passar esta linda brincadeira. Esquecem que as eleições regionais estão à porta e que é preciso prepará-las como deve ser. Esquecem que mais depressa se unem as maiores divergências entre quem está no poder, do que se junta quem está na oposição. Esquecem que quem manda é capaz dos maiores exercícios de contorcionismo para continuar a mandar e que quem nunca mandou facilmente desiste, deita a toalha ao chão e se conforma.

Não tenho dúvidas de que depois de toda esta briga pública no PSD, quando chegar a vez de reunir, quando cheirar a uma efectiva perda de poder, os maiores inimigos serão os principais aliados, capazes de engolir sapos em nome de projectos, sonhos, programas e outras balelas. E quando esse momento chegar, se chegar, a oposição estará então a levantar-se da primeira fila de onde assiste à guerra para recrutar soldados oposicionistas. Será tarde. Talvez muito tarde.

3 – Os dirigentes do PND que invadiram o Jornal da Madeira foram condenados. Honestamente, não me surpreende muito a condenação. O que choca é o Tribunal não ver o que está à vista de todos. O que arrepia mesmo é saber que temos um Tribunal que não é capaz de condenar uma invasão sem dar como não provadas a parcialidade do panfleto medíocre em que se tornou o Jornal da Madeira. O que enerva é ver esta passividade toda, esta hipocrisia geral que embala não só grande parte do PSD, metade do Governo e também a maior parte da Diocese do Funchal que é pateticamente utilizada num jogo de poder.

Mas voltemos à sentença. Admitem os dirigentes do PND a possibilidade de pedir para cumprir a pena de cadeia em vez das multas. Não parece que esse desejo seja assim tão simples mas seria interessante. Talvez 26 dias na cadeia fossem suficientes para o País olhar melhor para a Justiça que temos. Talvez esse tempo permitisse à sociedade madeirense e portuguesa ver o que o Tribunal do Funchal não consegue ver: a parcialidade do Jornal da Madeira, a fragilidade das suas contas suportadas por todos nós, a aldrabice de um título gratuito que ostenta preço de capa. Talvez assim se percebesse com maior clareza que, mais do que um instrumento político, o Jornal da Madeira, dominado por Jardim com a cumplicidade do resto do Governo Regional, de algum PSD e o consentimento da Diocese, é um embuste social, um logro, uma mentira, uma aldrabice completa que nos deveria envergonhar a todos.