Quando uma companhia de navegação aérea é notícia quase nunca o é por boas razões. Neste domínio como noutros, em que está em questão a segurança dos utentes, aquilo que corre bem não faz usualmente manchetes na imprensa escrita nem preenche a atenção do audiovisual. Notícia é quando alguma coisa deixa de correr bem, quando algo ocorre que leva á quebra de confiança por parte dos passageiros bem como do público em geral. E isso tem vindo a acontecer ultimamente com a TAP, onde nestas semanas mais recentes foram reportadas duas situações insólitas, ainda que em relação a qualquer delas não tenham avultado razões para mais do que uns tantos sustos. Na primeira delas, um voo regular com destino a Amesterdão aterrou inopinadamente em Paris em consequência de uma situação de despressurização da cabina. A segunda situação, ocorrida com poucos dias de intervalo da primeira, revestiu-se de maior aparato: um voo acabado de sair da Portela com destino a São Paulo viu-se constrangido a regressar a Lisboa depois de uma explosão no lado direito da cabina ter originado a queda de várias peças de não exactamente grande porte, as quais, todavia, danificaram ocasionando prejuízos em viaturas naquele zona estacionadas, e sobre as quais caíram. Se a primeira das situações relatadas não é exactamente recorrente, a segunda afigura-se mais grave tendo forçado a aeronave a alterar a trajectória a fim de derramar combustível sobre o mar para depois poder voltar em segurança ao Aeroporto da Portela, decorrida mais de meia hora sobre o momento da largada. E convenha-se que se uma situação de despressurização pode ocorrer e ocorre com alguma naturalidade ao que se julga, o espectáculo de um avião a perder peças em pleno voo é tudo menos normal e não contribui em nada para a confiança depositada pelos passageiros na transportadora. Um outro aspecto, contudo, aqui avulta, o qual reclama a atenção da TAP na forma como comunica com os seus utentes. Referimo-nos à informação disponibilizada pela Companhia aos seus utilizadores, informação essa que é muito importante em termos de cimentar a confiança necessária numa relação de transporte aéreo, sendo que esse é um trabalho que compete ao Departamento de Comunicação e Relações Públicas da Companhia, tenha ele a designação que tiver. É que estando em questão a relação de confiança depositada pelos utentes em quem os transporta, a TAP, no caso do voo para São Paulo em que ocorreu a queda de peças sobre Camarate, limitou-se a dizer que todos os procedimentos de segurança haviam sido cumpridos, parecendo reclamar a conclusão de que não sobravam razões para alarme. Avulta, todavia, a questão: cumpridos todos os procedimentos de segurança, a aeronave, decorrido que foi menos de um minuto de voo, espalhou peças sobre Camarate e teve que derramar parte do combustível que transportava sobre o mar a fim de poder regressar á Portela. Agora que se fala em Camarate em matéria de comunicação, um ensinamento de Sá Carneiro. Recomendava ele aos políticos jovens e menor jovens que sempre que não tivessem nada de relevante para dizer optassem por se manter calados. Perante uma evidência como aquela que decorre da queda de peças de uma aeronave, não é, naturalmente, o facto de todas as rotinas e procedimentos de segurança terem sido cumpridos que pode tranquilizar os utentes. Ao contrário, o facto de a Companhia parecer contentar-se com isso é um motivo de quebra de confiança porque isso significa que a operadora não vai até onde deve ir na investigação dos motivos e na eventual responsabilização dos incumpridores. Na verdade, a circunstância de ter ocorrido o que ocorreu aponta para a irrecusável evidência de que os procedimentos de segurança não haviam sido respeitados, seja a responsabilidade de quem for. Nesta matéria o que é importante é a segurança do passageiro e esse deve constituir um valor inquestionável. Se é verdade que a perfeição não existe, é bem certo que neste domínio a perfeição tem que ser procurada a todo o custo. A segurança dos utentes depende disso. Naturalmente que todos os utentes dos meios aéreos de navegação têm consciência de que nesse domínio a segurança não é nem tende a ser absoluta e a recordá-lo está o acidente, provavelmente para sempre inexplicado, da Malásia Airlines. Mas é importante que aqui se busque a perfeição. E a atitude aqui adoptada pela TAP não parece caminhar no sentido de tal preocupação.

Carlos Sequeira