Esta palavra” o destino” que não costumo usar no meu vocabulário mas vai servir de lançamento para esta reflexão. É o pontapé de saída! Os meus antepassados e familiares usavam e abusavam deste vocábulo a par de outros com o mesmo sentido. A “sorte” e o “fado”, eram expressões que justificavam, o injustificável, “amoleciam” os temperamentos e a vontade de pensar, ou mesmo a rebeldia e irreverência. “Meu filho, não penses, vai ter de ser assim, … é o destino!” Para algumas culturas a sorte é sinónimo de falta de trabalho, de rigor e de empenho, enquanto para nós, vai servindo para “branquear” atitudes e comportamentos de negligência e mesmo de incompetência. Se persistirmos nos comportamentos de sempre, então não vale a pena refletir, se era ou não possível fazer melhor no campeonato do mundo, se a conceção e organização dos campeonatos profissionais de futebol podem ser remodelados, se o desenvolvimento do futebol deve ser equacionado e reformulado. Claro que existem outros, como sejam os direitos televisivos do espetáculo desportivo, a formação dos praticantes e o seu enquadramento, a carreira dos treinadores, as instalações, e outros tantos que fazem parte deste universo do futebol. Esperemos pelo destino ou o destino é esse mesmo! Já está definido! Afinal com um pouco de “sorte” podíamos ter feito muito melhor. Se recordarmos aquela grande penalidade, o contratempo da expulsão, e aquele fora de jogo são razões suficientes para, a par das lesões, do golo falhado incrivelmente, justificarmos os resultados negativos que subtraindo à falta de sorte até são positivos. É o nosso destino! Então não há nada a fazer. Foi a sorte! Nesta falta de sorte, inclui-se ou não, a falta de planeamento, a de preparação, a de competência, mas abunda a grande imaginação, uma capacidade extraordinária de improviso, muito pouco rigor, e talvez mesmo, porque está na moda, muita inovação. A inovação é uma parte ainda muito incompreendida, pois se o fosse não seria inovação. Não se explica, pois fica mais fácil para não haver responsáveis, nem azo ao politicamente incorreto. Há quem defenda que a demonstração de uma alta performance, é noventa por cento de esforço e trabalho e somente dez por cento de talento. Aqueles que batem recordes, conseguem marcas mundiais falam muito pouco de sorte, mas muito mais de trabalho, esforço, dedicação, empenhamento e competência. Se nos refugiarmos na sorte, evocando-a para perpetuar o estado atual, e não quisermos modificar o futuro, será necessariamente uma atitude que irá comprometer esse mesmo futuro. Vamos nos abandonar à sorte, e o destino esse já esta traçado. Para que trabalhar, pensar planear e agir contrariando o destino? Este futebol, onde os atores são necessariamente os mesmos, porque continuarão a empurrar a bola, os treinadores a gerir o espetáculo desportivo e os dirigentes a organizar o futebol, não merece ser modificado, porque foi sempre assim e será! É o nosso destino! Fiquemos pelo destino e esperemos que a sorte nos caia em sorte!
Rui Mâncio Caires Treinador de futebol