António Ferreira Nós vivemos na sombra de arquétipos, algo particularmente insidioso no que diz respeito à beleza. Ainda no outro dia uma amiga disse-me que invejava uma transeunte. Observei a dita mulher e não compreendi o que aquilo quis dizer, mas fiquei elucidado com a explicação: olha como ela se veste, nota-se que se está marimbando para o olhar dos homens. É uma gorda, mas mexe-se com sensualidade e exibe roupas vistosas como se não tivesse medo de ser julgada feia. Sendo a minha amiga jovem, e conhecendo as suas macambúzias inclinações para se sentir tocada pela indiferença masculina, julgo atingir a motivo da inveja. Este problema, naturalmente, produz em mim interrogações. A primeira é compreender isto: Será que ser desejável é uma propriedade? Não quero que a minha dúvida se dilua em questões semânticas. Imaginemos uma moradia bem situada, com boas condições, com uma óptima arquitectura e jardim aprazível. A moradia está inabitada, o seu proprietário quer vender a mesma. No caso de haver interessados na compra, para além do que foi dito, poderemos dizer que a moradia tem a característica de ser desejável? Faço a pergunta, trazendo água no bico, porque se “ser desejável” é uma característica ou propriedade, será que “não ser desejável” também o é? Claro que isto é uma consideração ilógica - e é isto que quero argumentar -, imaginemos fulano A, este é desejado por sicrana B, mas não é desejado por beltrana C. Sendo o tipo desejado e não desejado em simultâneo, notamos que ser (ou não ser) objecto de desejo não pode ser uma propriedade do fulano - ignoremos a possibilidade do desejo poder ser medido em quantidades relativas de pessoas que desejam ou não desejam o fulano. O ponto fundamental é o seguinte: se uma mulher ou homem são desejáveis, será que podemos dizer, também, que são indesejáveis? É aqui que entra os domínios do subjectivo e do intersubjectivo. A Sombra é uma realidade intersubjectiva. Há mulheres bonitas que não são desejadas - falo de mulheres porque sou heterossexual. Ou seja, nós reconhecemos que outros homens até podem desejar aquela mulher - porque a beleza é evidente, por exemplo -, mas esta não é particularmente atraente na perspectiva subjectiva. Se entendermos a beleza como um entendimento meramente subjectivo: a mulher é bela para mim; o objecto de desejo é uma decisão pessoal ou subjectiva. Se procurarmos mulheres porque a sua beleza é reconhecida por outros - a nossa opção de desejo fundamenta-se numa realidade intersubjectiva. Podemos dizer que a segunda perspectiva - a intersubjectiva - é ilógica, como já foi demonstrado, mas há muitos homens e mulheres assim - embora veja isto mais como uma sombra masculina. Há pessoas que procuram arquétipos de beleza e isto é ilógico. Então, terá alguma lógica ser reconhecido ou não como desejável? Há muita gente que se preocupa com isso, penso porque ser objecto de desejo confere algum poder. E quem é que não quer ter poder? Ter poder, mais uma vez, é desejável. Embora eu esteja convencido que muitos poucos de nós saibamos lidar com doses excessivas de influência sobre os outros, ou seja, a capacidade de lidar com poder em demasia é fraca em muita gente. Devemos aspirar ter poder sobre as nossas vidas, este poder é sempre muito recomendável. Mais do que isto, surgem problemas. Sou levado a pensar que se fossemos um pouco lógicos seriamos todos bem mais felizes, a começar na intimidade. Quem a tem, torna-se muito subjectivo e conscencioso a preservar este bem.