A ideia de a Democracia ser transferível, é em si, desde logo, contrária à sua própria natureza. São os povos que devem auto determinarem-se nas suas escolhas, nas suas opções. Por outro lado, os contextos e tradições políticas são invariavelmente diferentes no Ocidente e no Oriente, o que de si, também pode indiciar que não existe uma prescrição que seja válida para todo e qualquer contexto, no que à pacificação do planeta diz respeito. Já outro conceito, este sim transferível, é a promoção do esclarecimento, no sentido de que os povos ao fazerem as suas escolhas, o façam com a clareza necessária em ordem a que o melhor dos melhores sistemas de governação conhecidos seja implantado. No entanto, se aceitarmos a democracia como Winston Churchill a classificou, “Ninguém pretende que a democracia seja perfeita ou sem defeito. Tem-se dito que a democracia é a pior forma de governo, salvo todas as demais formas que têm sido experimentadas de tempos em tempos.”, talvez possamos dizer que a democracia é recomendável, mas não transferível. Teoricamente, porventura as nações democráticas, serão mais “amigas da paz”, mas no plano prático e tal como referem Edward D. Mansfield e Jack Snyder, também podem representar um factor de maior instabilidade, já que, alertam, a maior parte dos estados que adoptam um regime democrático tornam-se mais violentos nos anos seguintes (nacionalismos exacerbados, conflitos étnicos e guerras civis, assim como uma enorme inoperância das instituições e da economia), sendo nas democracias já amadurecidas (interiorização de uma tradição política de ordem e liberdade) que a tal amizade pela paz se verifica, por via das relações entre estados onde um diálogo responsável de debate e cooperação está já instituído. A implementação da paz por via do direito, tal como Kant o advogou (numa visão datada), é certamente um contributo e simultaneamente um paliativo, pois não me parece que a paz genuína resulte daí. A paz só será realizável por via da interiorização, que num conceito moderno podemos definir como uma “competência de civilização” dos cidadãos e que se realiza no exterior, isto é, na acção pacífica, de compreensão e cooperação. Trata-se de um diálogo que exige humildade, abertura e respeito pela diferença. Assim como o diálogo exige como condição a fidelidade à própria identidade, exige também o respeito pela dignidade do outro nas suas convicções.

Fernando Rodrigues “Cooperativa Espaço Às Artes - Cultura Ponto Zero”