O modelo de liberalização das ligações aéreas implementado pelos Açores demonstra que a autonomia parlamentar é muito mais do que uma caixa de mendicidade à República, mais do que uma caixa-de-ressonância do poder político viciado em fomentar ódios separatistas embrenhados no contencioso das autonomias. E comprova que nós, deste lado do Atlântico, ainda estamos naquela fase civilizacional, em que o parlamento é usado como catapulta para cuspir a mais de 973 quilómetros de distância toda a responsabilidade pela continuidade territorial e por tudo aquilo que implique gastar um cêntimo para esbater o sentimento da nossa incontornável insularidade.

A liberalização das ligações aéreas para a Madeira nunca poderia ter avançado sem acautelar os estudantes, mas também os doentes que carecem de cuidados de saúde no território continental assim como os residentes que também têm direito à mobilidade. Não foi ao fim de seis anos que descobrimos que o calendário escolar das universidades coincide com as épocas altas e com os grandes eventos turísticos na Madeira. É verdade que a liberalização trouxe as companhias de ‘low cost’, a concorrência no sector, que encheu hotéis e que o destino turístico chegou a mais gente. Mas o que fez o Governo da Madeira para libertar os estudantes do sequestro das tarifas de época alta? Berrou para que fosse Lisboa a assumir o subsídio de mobilidade? Classificou de rico e de teimoso quem decidia ir para universidades do continente? E àqueles que já não conseguiam subsistir apresentou como alternativa os cursos da Universidade da Madeira, limitando a liberdade de opção individual? Ofereceu como prémio de consolação um reembolso de 60 euros a centenas de estudantes que, para virem a casa no Natal, na Páscoa e no Verão, pagam mais do que milhares de turistas por umas férias de uma semana com hotel e meia pensão incluídos? Quem não tem dinheiro para estudar então que nem saia de casa! Que vá cavar! Ou que cave daqui para fora! Tem sido assim. Quem está mal que se mude ou então que vá reclamar à porta da Assembleia da República, respondem de fisga na mão. E quem inviabilizou a única alternativa de mobilidade que tínhamos face ao transporte aéreo? Quem travou a concorrência no sector dos transportes marítimos? E quem nunca mais se importou em renegociar a retoma da linha Funchal-Portimão em ‘ferryboat’?

E o que dizer de um Governo Regional que está mais concentrado na revisão constitucional do que na revisão do modelo da comparticipação do subsídio de mobilidade social, que é incompetente na exigência do cumprimento do princípio da continuidade territorial mas ágil a negociar a manutenção de regalias excepcionais para os titulares de cargos políticos? Como se explica que a maioria dos nossos deputados não descubra cabimento orçamental na Região para esbater as assimetrias da insularidade mas não tenha pejo em fazer aprovar para si e para os seus partidos um ‘jackpot’ criminoso que ofende a inteligência dos eleitores?

E por cá andamos, de nariz sobre a linha azul do horizonte, a pagar tarifas de luxo aos nossos filhos para poderem estudar lá fora, alimentando um parlamento que é uma autêntica corte burguesa, uma fábrica de excentricidades que custa seis vezes mais do que o das nove ilhas açorianas e 23 vezes mais do que a Assembleia da República, e pagando viagens secretas a um presidente do Governo Regional que anda de avião todos os meses às escondidas e à conta dos nossos impostos. Este estado de coisas só é compreensível à luz da tirania política numa democracia adormecida por um obscurantismo racional de outro mundo. A diferença entre a mobilidade que temos e a mobilidade que pagamos não se resolve à fisgada, nem de catapulta. Resolve-se com um bilhete sem regresso oferecido em catadupa.