O que faz uma vida ser plenamente conseguida e realizada?
Muitos, provavelmente, responderão de acordo com os hegemónicos critérios materiais e sociais. Com os repisados critérios convencionais da «boa» casa, dos carro(s), de uma vida materialmente próspera. Ou então de uma vida socialmente reconhecida, um «bom» casamento, todos «bem encaminhados na vida»…
Bem, mas o que sabemos nós na verdade o que é a Vida, e os seus caminhos nevoentos? Para a podermos ‘medir’ com os critérios e parâmetros atrás sumariamente descritos?
Nesta ‘silly season’, que alguns desejam fervorosamente que atravessemos, proponho-vos, em contra-corrente, um brevíssima ‘viajem’ às profundezas do sentido da Vida ignota em si mesma, de ‘uma’ vida ‘pessoal’, que reputo de absolutamente conseguida, embora, talvez, considerada «excêntrica» e «falhada», se teimarmos em medir as coisas de forma reducionista e afunilada. Falo-vos na vida absolutamente conseguida e realizada de Fernando Pessoa. Um homem que vivia de favor em quartos alheios, que nunca procurou constituir família, que se estava olimpicamente «marimbando» (única leve cedência ‘silly’ …) para todos os nossos parâmetros ‘burgueses’: académicos, profissionais, e mesmo de saúde. Uma vez radicado em Lisboa, não viajou mais, sem ser através do espírito, mal tinha vida social, a única «relação romântica» que se lhe conhece foi inteiramente platónica, não se formou na universidade, nunca procurou riquezas materiais, e o que publicou, fê-lo fragmentariamente em jornais e revistas, e morreu só, com 47 anos…
No entanto, em verdade vos digo que, em 200.000 anos da nossa espécie, muito poucos seres humanos atingiram o âmago multidimensional, e realizaram integralmente as potencialidades, do humano, como ele o fez. Pessoa foi um Ser absolutamente livre, porque dedicou absolutamente a sua vida a uma (auto) Gnose, e a uma (auto) Génese, que, de tão luminosas, não se compadeciam com as miragens da pequena vidinha ‘burguesa’, linear e quantitativa, grosseiramente convencional e materialista, que nos ensinaram a Desejar, e consumir as nossas vidas a perseguir. Para só encontrarmos a desilusão: a insatisfação férrea da insaciabilidade inane. Pessoa: o anti-burguês absoluto. Nesta silly season, rodeados de Barbies e Kens, eis o ‘passeio’ que se afigurava necessário.
Miguel Santos