A minha rua era uma via pacata de simpáticas senhoras que viviam amenamente. Zona residencial onde pouco ou nada de novo acontecia.
Com alguma surpresa e estardalhaço, inauguraram uma lavandaria na esquina, cheia de promessas de tudo limpar e clarear. Puseram-lhe o nome de lavandaria laranja e nos dísticos alusivos não deixaram de pôr a cor que dá o nome à casa.
Promete wash and clean usando virtuosos anti-nódoas e branqueadores que põem a roupa mais limpa do que quando nova e permitem a quem a usa passear-se, ocultando a verdadeira idade do que vestem.
Julguei incautamente que o negócio não tinha qualquer sucesso. Sempre pensei que as minhas vizinhas gostavam do que vestiam e tinham até um certo orgulho naquele tipo de vestimenta, pese embora um pouco démodé.
Ilusões!
As senhoras começaram a disputar os efeitos das lavagens e, uma a uma, todas procuraram naquele modesto novo estabelecimento, a inovação e a renovação. Como a moda das “tranças pretas” no Chiado, parece que adquiriram um novo entusiasmo na forma como andam e falam, olhando para as suas roupas agora tão clareadas. Julgam, lá no fundo do seu ser, que os vizinhos esqueceram as roupagens envelhecidas de outrora e pensam que, por causa da lavagens, vestem agora no “dernier cri”. Há um elixir de juventude no perfume da roupa lavada e a promessa da vitalidade eterna parece inebriar a principal preocupação feminina do local.
Noto que as lavagens começam a ser muitas e disputam quem há mais tempo descobriu as lavagens ou quem é que lava mais profundo.
Lembrando as guerras entre marcas de sabão de máquina – quem não se lembra do “omo lava mais branco”, e “branco mais branco não há”? – as vizinhas não se cansam de ir diariamente à lavandaria pedir que voltem a mergulhar os panos nos produtos para ver se conseguem melhor se distinguir das outras, por terem menos nódoas e ausência de vestígios do passado nos seus trajes. Os tecidos saem um pouco puídos de tanto lavar, esfregar e corar, mas é um risco que assumem: mais vale rasgado e lavado do que exibir vestígios da outra época!. Não há peça têxtil que consiga resistir a tanta barrela, e há até quem ande a dizer que, afinal, o mal não é tanto das roupas, mas se calhar de alguma doença tinhosa que as atingiu e que procuram expurgar.
No processo de lavagem que esta lavandaria introduziu descobrimos um segredo. É que as vestes de tão desbotadas que saem das máquinas que já parecem de outras cores, imitando as rivais de outras zonas cá do burgo. Diz-se, à boca pequena, que a lavandaria oculta uma tinturaria às escondidas que permite ver nas roupas antes tão alaranjadas, outras tonalidades rosáceas ou azuladas. Aquelas minhas vizinhas que sempre se distinguiram pela arrogância da postura e pela omnisciência do vestir, agora confundem-se facilmente com outras que anteriormente eram suas inimigas.
A lavandaria laranja está a revelar-se um sucesso. Semelhante ao negócio dos alfaiates que há 40 anos se dedicaram a virar os casacos. E dei comigo a pensar quanto é importante o hábito que o monge usa, porque, ao contrário do que diz o ditado, as vizinhas julgam que são as lavadas e descoloridas vestes que as vão identificar perante a rua inteira, esquecendo a fase mais alaranjada da sua existência.
Será?
Ricardo Vieira