E os meus olhos ainda intactos de espanto por ti O silêncio não é o oposto mas o avesso José Tolentino Mendonça, “A Papoila e o Monge” não regressarei, ainda. nem sei se nem quando. antes, era a música a medida da chegada a ti. hoje, o silêncio de te saber solo. emudecida, recordo um livro que não te li, como se te pudesse falar. chegou depois de ti, que escutas o interior da terra. quando regressar desse lugar nenhum, terei no interior do teu silêncio pousado estas palavras: “atravessei aqueles lugares sem conseguir escrever palavra. uma vez ali, só conseguia estar. o que quer que escreva, preciso de distância. ou de uma proximidade maior do que aquela, feita de um chegar e de um partir”. estar é hoje verbo impossível. impossível escapar à mudez, à veia vazia, ao gesto inanimado, ao tempo fátuo, impossível ter “os dois pés na experiência e fugir a sentimentos como quem foge a uma carga policial”. não há fuga. há uma bala lenta apontada ao céu da boca, rumo a norte, rumo à morte. a boca queimada. nela se instala o avesso, nem palavra nem eco, o avesso: “o silêncio só raramente é vazio / diz alguma coisa / diz o que não é”. chegarei à estação de comboio e não me abraçarão os teus braços largos. não ouvirei a tua voz grave – sei que palavras me dirias ainda que o vento vindo da tua boca pousasse na minha nuca, e a minha mão na tua (gesto nosso), outra em redor das tuas sempre magras costas – ambos mudos, pelo tempo em que o meu e “o teu silêncio fosse tal / que nem o pensamento / o pense”. percorrerei estradas escuras curvas, vinhas pomares muros casas de granito, placas a assinalar caminhos para lugar nenhum, fontanários e canastros, figueiras pinheiros bravos e mansos, hortências heras e cameleiras, incêndios ardidos e por arder, amieiros e a margem do rio como fio de prumo. era o caminho de chegada a mim mesma, mas “não sei / não digo / existe em algum lugar outro lugar outro bem?” o muro estará oxidado, fechado. não tocarei a erva alta nem a uva madura, sentirei nos olhos a terra seca, exausta de estações a sustentar videiras, o tanque com água rasa. não haverá cestas à espera da nossas mãos tornadas cachos – e um ninho fortuito que nos meus dedos perdeu morada depois de os pássaros o tornarem devoluto. guardo-o, ainda, ninho morto. não dirás quase de cor Teixeira de Pascoaes pelo ocaso – e os meus olhos imensos de espanto –, não ouviremos discos de vinyl a prolongar noites de agosto em brasa na varanda da sala, nem beberemos alvarinho ou gin tónico sem medida, não dirás poemas de Aragon cantados pelo Ferré – que ainda não tive tempo de aprender de cor – e os meus olhos ainda intactos de espanto por ti. não sei se mas tento crer. falas-me por dentro das veias, não as tuas – suspensas – por dentro das minhas – em que sempre pulsas. no livro tardio que não te pude ler ouvi que “uma simples folha de erva não é menor que o infinito”. tu sabias. tu sabes. Diana Pimentel Docente universitária

E os meus olhos ainda intactos de espanto por ti

O silêncio não é o oposto mas o avesso José Tolentino Mendonça, “A Papoila e o Monge” não regressarei, ainda. nem sei se nem quando. antes, era a música a medida da chegada a ti. hoje, o silêncio de te saber solo. emudecida, recordo um livro que não te li, como se te pudesse falar. chegou depois de ti, que escutas o interior da terra. quando regressar desse lugar nenhum, terei no interior do teu silêncio pousado estas palavras: “atravessei aqueles lugares sem conseguir escrever palavra. uma vez ali, só conseguia estar. o que quer que escreva, preciso de distância. ou de uma proximidade maior do que aquela, feita de um chegar e de um partir”. estar é hoje verbo impossível. impossível escapar à mudez, à veia vazia, ao gesto inanimado, ao tempo fátuo, impossível ter “os dois pés na experiência e fugir a sentimentos como quem foge a uma carga policial”. não há fuga. há uma bala lenta apontada ao céu da boca, rumo a norte, rumo à morte. a boca queimada. nela se instala o avesso, nem palavra nem eco, o avesso: “o silêncio só raramente é vazio / diz alguma coisa / diz o que não é”. chegarei à estação de comboio e não me abraçarão os teus braços largos. não ouvirei a tua voz grave – sei que palavras me dirias ainda que o vento vindo da tua boca pousasse na minha nuca, e a minha mão na tua (gesto nosso), outra em redor das tuas sempre magras costas – ambos mudos, pelo tempo em que o meu e “o teu silêncio fosse tal / que nem o pensamento / o pense”. percorrerei estradas escuras curvas, vinhas pomares muros casas de granito, placas a assinalar caminhos para lugar nenhum, fontanários e canastros, figueiras pinheiros bravos e mansos, hortências heras e cameleiras, incêndios ardidos e por arder, amieiros e a margem do rio como fio de prumo. era o caminho de chegada a mim mesma, mas “não sei / não digo / existe em algum lugar outro lugar outro bem?” o muro estará oxidado, fechado. não tocarei a erva alta nem a uva madura, sentirei nos olhos a terra seca, exausta de estações a sustentar videiras, o tanque com água rasa. não haverá cestas à espera da nossas mãos tornadas cachos – e um ninho fortuito que nos meus dedos perdeu morada depois de os pássaros o tornarem devoluto. guardo-o, ainda, ninho morto. não dirás quase de cor Teixeira de Pascoaes pelo ocaso – e os meus olhos imensos de espanto –, não ouviremos discos de vinyl a prolongar noites de agosto em brasa na varanda da sala, nem beberemos alvarinho ou gin tónico sem medida, não dirás poemas de Aragon cantados pelo Ferré – que ainda não tive tempo de aprender de cor – e os meus olhos ainda intactos de espanto por ti. não sei se mas tento crer. falas-me por dentro das veias, não as tuas – suspensas – por dentro das minhas – em que sempre pulsas. no livro tardio que não te pude ler ouvi que “uma simples folha de erva não é menor que o infinito”. tu sabias. tu sabes.

Diana Pimentel Docente universitária