Quis saber quem sou. O que faço aqui. Quem me abandonou. De quem me esqueci. Esta foi a letra inicial da música que retratou a revolução do 25 de Abril de 1974, mas que continuam na ordem do dia.

Questões atuais e pertinentes que poderiam ser colocadas aos ‘apóstolos’ do sistema, Pedro (Paços Coelho) e Paulo (Bento) mas é do selecionador nacional que vamos falar.

Quis saber quem sou. Paulo Bento é um treinador com virtudes e defeitos como qualquer comum dos cidadãos mas é teimoso e muito fiel e agarrado às suas convicções. No rescaldo da grande desilusão que foi a presença de Portugal no mundial que ainda decorre, assume a mea culpa mas volta a afirmar que voltaria a fazer o mesmo. Parafraseando Felipe Scolari …’E o burro sou eu’?

O cargo de selecionador nacional devia ser entregue a um treinador com outro currículo pois Paulo Bento ainda não ganhou nada para liderar a ‘equipa de todos nós’. A seleção de Portugal não é uma equipa qualquer daí se justificar ser comandada por alguém que demonstre mais competência e sobretudo maior lucidez. Se há ‘males que vêm por bem’ foi necessário haver castigos e lesões ‘a mais’ para Paulo Bento se aproximar da equipa ideal, dentro da lista dos seus ‘muchachos’. Teimoso não abdicou dos jogadores que o ajudaram a promover como treinador, mas porque (teimosamente) não quis renovar foi esse mesmo grupo que contribuiu para a sua queda e pôr a nu as lacunas como técnico.

O que faço aqui. A culpa não pode morrer solteira. Em tempo de reflexão há que chamar os bois pelos próprios nomes, sem eufemismos nem falsas delicadezas. Paulo Bento já disse que ‘daqui não saio, daqui ninguém me tira’ porque tem a confiança do vice para o futebol, Humberto Coelho, e do presidente da federação, Fernando Gomes. O mesmo Humberto Coelho que me merece muita consideração por aquilo que foi como excelente praticante, mas que agora vem exigir respeito pela seleção quando no seu tempo de treinador fez chantagem e exigiu uma ‘pipa de massa’ na véspera de viajar, para além dos vencimentos a que tinha direito. Todos diferentes mas todos iguais, quando toca a dinheiro, mas isso são contas do outro rosário. Mais do mesmo, não, obrigado.

Quem me abandonou. Eram centenas à partida, milhares nos Estados Unidos da América e Brasil e apenas escassas dezenas à chegada da seleção que Paulo Bento liderou e que em termos desportivos defraudou as nossas expectativas. Uma seleção muito virada para os penteados e imagens da cintura para cima mas com muita falta de pernas da cintura para baixo. Daí a grande onda de roturas e lesões. Faltou ‘ganas’ nos jogos contra a Alemanha e Estados Unidos e apenas contra o selecionado do Gana estivemos mais perto daquilo que somos capazes. Paulo Bento herdou um ‘histórico’ do trabalho realizado por Carlos Queirós na formação e da empatia conseguida por Felipe Scolari, o ‘mestre’ da ligação do povo/seleção mas não foi um bom gestor de serviços e das excelentes condições que a FPF lhe proporcionou. Por isso encontra-se (quase) orgulhosamente só. A grande maioria dos portugueses não se revê neste treinador e muito por causa da sua casmurrice e das suas escolhas.

De quem me esqueci. Paulo Bento esqueceu-se essencialmente daqueles jogadores que estiveram em destaque na última Liga Profissional. Falamos de Cédric, Sequeira, Adrien e até do próprio Bebé que esteve em grande destaque no Paços Ferreira. Entre Eder e Bebé optava pelo jogador do Paços Ferreira. Mas já que teimosamente apostou no seu núcleo duro e naqueles que contribuíram para o apuramento do mundial, os madeirenses Dany e Ruben Micael foram injustiçados. Certo que o camaralobense foi alvo de lesões durante a época mas pergunta-se, e os outros?

Depois da abertura e disponibilidades reveladas, também Tiago devia ter viajado para o Brasil. Mas aqui faltou a Paulo Bento a humildade para ir ao encontro do jogador que fez uma grande época do Atlético de Madrid e dizer: “ Eu e Portugal precisamos de ti”.

Mas a teimosia e arrogância exacerbada tiveram os resultados que todos conhecemos. E depois do adeus, será que a FPF vai tomar medidas importantes para regenerar e vitalizar o futebol português que passa por, em 1º lugar, limitar a vinda de tantos jogadores estrangeiros? E será que Paulo Bento vai deixar de ser marioneta de outros lobbies e interesses e rejuvenescer a equipa que continua a ser de todos nós?

Miguel Justino