Reagindo a um artigo por mim escrito, num orgão de comunicação regional, o presidente da direcção dum organismo que mandava no desporto ligou para o director desse órgão, tentando defender o secretário da educação, então visado no artigo. O meu director, alarmado com tal tentativa de intimidação, chegou a dizer-me que eu teria “arrasado” o governante e que, “se aquilo fosse parar aos tribunais, dificilmente teria argumentos para me defender”. Coisas de acagaçados. Fiz-lhe ver que não havia ponta por onde se lhe pegasse, porque todo o artigo estava baseado em verdades facilmente comprováveis. Então ouvi a seguinte reacção: “Tem razão, aliás, acho que já merecemos uma nota oficiosa”. Achei imensa piada ao homem e nao houve mais reacções ao meu escrito.
Era o tempo das Notas Oficiosas (entretanto apagadas pela Lei), uma das armas de perpetração ditatorial do regime madeirense, que acabavam sempre por redundar na valorização de quem, na comunicação social, andava no caminho certo. Que outro interesse não tivessem, essas notas tinham o condão de provocar o riso, pelo menos aos jornalistas.
Nem aquele artigo, nem nunca nenhum outro, da minha autoria, mereceram “honras” de notas oficiosas, nem processo algum, apenas motivaram tentativas de intimiddação e de censura por parte de certas figuras que, sendo mais papistas que o papa, ou imitadores de ditadores (tontos utéis), querem mostrar serviço ao regime instalado, a começar por adjuntos e assessores pagos para essa função, chegando até outros com cargos mais importantes. Como aconteceu com um fulano que pediu a sicrano para dizer a beltrano para me influenciar no sentido de “moderar, dar um risco, atenuar as minhas crónicas”. Fulano esse que chegou ao ponto de me dizer que eu escrevia de tal jeito que não se podia “pegar” – aquela vontadinha…
Com acutilância, coragem e frontalidade, que sei que causam incómodo, a verdade é que eu ajo apoiado em princípios e não escrevo com mentiras, sem fundamento, sem espírito de justiça, sem ponderação, sem me aconselhar, em alguns casos. Por isso, nunca senti necessidade de pedir, nem nunca pedi desculpa a ninguém – a ninguém mesmo! – nunca fui afastado de nenhum ógão de comunicação ou espaço de escrita ou radiofónico e quando saí foi por decisão minha e sempre que entrei ou regressei foi por convite dos responsáveis, excepto nos espaços cuja produção seja minha.
Fora da comunicação social, donde saí, também foi por meu livre arbítrio, mesmo que houvesse impulsos de perseguição, como colocação na prateleira, ameaças, oriundos de reuniões da comissão política dum partido que eu cá sei. E os leitores também.
Quem disser algo diferente disto mente. E mente porque não tem argumentos limpos para sair de qualquer perturbação. Quem me deve desculpas que as salde.
Eu tenho por hábito dar nomes aos bois, mas há bois para os quais ainda não encontrei os nomes mais adequados.
Não sou importante, mas tenho vaidade, vivo satisfeito, sou humilde e sinto-me bem comigo mesmo. Fujamos todos à idiotia e aos idiotas coitados.
“Aqui ninguém me põe a pata em cima porque é de baixo que me vem acima a força do lugar que fôr o meu” – Ary dos Santos.
Eduardo Fonseca