“Vemos, ouvimos e lemos” sobre os milhares de meninos e meninas que atravessam a fronteira dos EUA no desespero e no sonho de encontrarem o mundo dos filmes e acabam arrastados como gado para matadouro no meio da negligência e de jogos políticos; sobre a guerra civil na Ucrânia onde, todos os dias, os nazis que tomaram o poder chacinam famílias inteiras; sobre a Síria onde o sofrimento e a morte substituíram, há muito, o lugar da vida e da alegria para milhares de crianças; sobre os cadáveres dos meninos que semeiam a Terra da Palestina a que chamamos Santa. São “danos colaterais” do absurdo.
Estas são algumas das duras realidades a que se somam todas as dores, todas as injustiças, todas as violências que, por todo o lado, os mais jovens sofrem. Mas são, se calhar, notícias distantes. E aquelas que se passam diante dos nossos olhos? E aquelas que estão ao nosso lado e que nem categoria de notícias parecem merecer?
As crianças foram as primeiras a ser atingidas pelo empobrecimento, foram as mais duramente atingidas pelas medidas de austeridade dos traidores que nos governam: os cortes na Educação, na Saúde, na Segurança Social, na Justiça deixam um rasto de caos que fere de morte o Futuro. A desumanização progressiva dos serviços públicos, regidos por critérios meramente administrativos e contabilísticos, tem consequências desastrosas. Para os governantes e para os legitimadores dos seus crimes, são apenas “danos colaterais”.
E a fome e a miséria? E os sonhos não cumpridos porque a escola teve de ficar pelo caminho ou porque a família se desestruturou ou falhou e porque a sociedade se desorganizou e recusa respostas? Apesar dos esforços dos que corajosamente ainda se debatem contra o caos, há um número significativo de hipócritas que já só cumpre ordens.
Já não nascem crianças? Como poderiam nascer se não protegemos as que aqui estão? Somos um povo a morrer em lenta agonia? Claro que somos se continuarmos, em silêncio e cobardemente, a pactuar com a destruição e a morte, a de longe e a de perto. O grau civilizacional de um povo vê-se no modo como trata as suas crianças, Portugal tem regredido violentamente.
Isabel Cardoso