Com base na minha experiência enquanto professor, enquanto educador, mas também enquanto observador, acredito que as expectativas criadas para e pelas crianças, quando demasiado elevadas, podem tornar-se prejudiciais para o seu futuro. Assisto com alguma frequência ao alcance de níveis de excelência, normalmente reforçados por menções em quadros de honra e de mérito. Por outro lado, deparo-me também com alunos que lidam mal com notas abaixo dos valores de topo da escala, crianças que muito cedo começam a sentir a pressão de obter avaliações a rondar a perfeição. No meu entender, a escala de avaliação de 1 a 5 adoptada no Ensino Básico é muito algo redutora e não apura com precisão o nível real do aluno. Por consequência, auto-avaliam-se por cima, vendo depois as suas aspirações, e as dos que os rodeiam, defraudadas. A escala de 0 a 20 utilizada no Ensino Secundário é mais discriminativa e permite uma maior e melhor distinção das competências de cada um. Acredito que os quadros de honra em idades mais tenras devem ser atribuídos com alguma cautela. Se por um lado servem de reconhecimento e motivação, na minha ótica podem tornar-se numa “faca de dois gumes”. Crianças com idades até 12 anos ainda são muito novas e imaturas para que lhes seja instigado de forma intensa este tipo de competitividade. Sendo que a formação pessoal é tão importante, estamos a resumir a premiação escolar a uma classificação. Ficam de fora a alegria, os sorrisos, o espírito solidário, a amizade, o companheirismo, a bondade e a boa educação. Fatores estes cruciais ao desenvolvimento saudável das crianças enquanto seres humanos. Costumo frisar que os alunos precisam de ter na escola espaço para muitas e variadas experiências e sensações. Sentimentos de conquistas e falhas, derrotas e vitórias, tristeza e alegria, recompensa e advertência, compreensão e rigor, etc. É importante, pelo menos uma vez no seu percurso escolar, lidar com o insucesso ou ter uma avaliação negativa. Isso só os torna mais fortes! Não foi à toa que foi inventada a borracha escolar... Todo este universo de experiências, não descurando as avaliações, contribui e muito para o equilíbrio, o bom senso, a competência pessoal e profissional. Estar no quadro de honra abre, sem sombra de dúvida, portas para o futuro profissional, mas nem sempre prepara para a vida. A “outra” parte é tão ou mais importante.

Bernardo Vasconcelos Professor de Ed. Física