Martins Júnior Que me dizem de Sophia as cinzas e ossadas do Panteão? Tudo e tão só quanto ela, corpo vivo e alma acesa, nos visita neste chão térreo que nos comprime e nos liberta. Bento Domingues, no seu mais recente comentário semanal, resume eloquentemente que “Sophia não precisava do Panteão, mas o Panteão é que precisava de Sophia”. E eu acrescentarei: porque o Panteão Supremo de Sophia era e é o seu e o nosso mundo onde viveu, o mar que a inundou, a “luz oblíqua” sobre os fiordes nórdicos e as colinas atenienses que a vestiram de uma aura translúcida sem ocaso e em que até a noite se lhe tornava “brilhante”. Peço ao arco-íris cósmico lhe deponha aos pés a lembrança da ilha que ela discretamente visitava, anos sessenta, e de cuja presença tive a honra de partilhar em momentos de tertúlia doméstica, onde a poesia e a música clássica tomavam conta da sala nobre do casal Nina e Elísio Amador. E o que dela mais impressivamente me ficou foi o teor da conversação, já em sua casa, na Travessa das Mónicas, à Graça, em Lisboa, ia eu mobilizado para a guerra colonial de Moçambique, em 1967. Na sala, sóbria e harmoniosamente decorada, frente à larga janela que nos enchia os olhos do azul estuário do Tejo, nessa manhã excepcionalmente luminosa, foi da luz que me falou. Sobretudo da luz oriental, da “luz oblíqua” que define a silhueta da rocha nua, da beleza arquitectónica de Atenas e da sua genesíaca, (o qualitativo é meu) paixão pela civilização helénica. Sempre que saía a público uma nota, um livro, qualquer referência a Sophia, surgia-me sempre este encontro. Porquê?… Pelo que não foi dito nem acontecido. Só mais tarde me apercebi: apresentando-me de farda militar pronto para seguir viagem e sendo ela uma acérrima militante anti-salazarista ( seu marido fora várias vezes preso pela Pide) e, portanto, estruturalmente hostil à guerra colonial, pois, com isso, nem uma palavra de repúdio, de censura ou menosprezo me dirigiu. Que dignidade, que fina sensibilidade, que respeito!!! Não pelo regime, não pela guerra, mas pela pessoa, ainda por cima, forçada a ter que dar o corpo às balas. Jamais o esquecerei! Em preito de homenagem, todos os dias vejo-a e curvo-me neste seu Panteão Planetário, onde também Fernando Pessoa viveu o seu drama e a sua glória: vejo-a e identifico-a a Ricardo Reis na serenidade rítmica da métrica de toda a sua poesia. Vejo-a Álvaro de Campos, não já na revolução alucinante da era tecnológica, mas na outra, mais importante, revolução liberta das noites farpadas em busca do Dia Novo “inteiro e limpo”. Vejo-a ainda Alberto Caeiro na paz idílica das verdes planuras e na tépida transparência do mar da menina, da “Menina do Mar”. O melhor de tudo é que não ficamos com as cinzas. Temo-la, viva, face de todas as almas, neste Panteão-Planeta que é seu e nosso.