Reza a história que antes de um jogo, Romário abeirou-se de Johan Cruyff, que então era seu treinador no Barcelona, e pediu dois dias para ir ao Brasil, porque tinha saudades de “sambar” no Carnaval do Rio de Janeiro. Cruyff respondeu-lhe: - “Se marcares dois golos no próximo jogo deixo-te ir ao Brasil.” Ao minuto vinte, Romário festejou o seu segundo golo, correndo em direção ao banco de suplentes. Não pretendia abraçar o treinador, mas sim dizer que o avião descolava dali a duas horas. Foi substituído e arrancou desvairado rumo ao aeroporto. Foi à sua vida com o samba na cabeça, a equipa ganhou e os objectivos cumpriram-se. O que seria de Romário se tivesse numa academia de futebol? Esta pergunta responde a uma discussão antiga que tenho com o meu irmão. Ele, romântico por excelência, livre de pensamento e solto na arte, defende que o futebol não pode ser tirado da rua. Eu entendia que as academias tinham uma função fundamental no jogo moderno pois, para além de produzirem atletas para a alta competição, faziam (fazem) um trabalho social e disciplinar em prol dos miúdos que saem da rua, dando-lhes hábitos e rotinas de trabalho que serão fundamentais para o seu futuro, seja qual for a atividade que venham a desempenhar. A derrota do Brasil, na última terça-feira, fez-me dar razão parcial ao meu irmão e afirmar que, muito provavelmente, as academias “à europeia” mataram uma geração do futebol canarinho. Em todos os mundiais, a seleção verde e amarela jogava com magia, com encanto e com o ritmo muito próprio. Possuía jogadores mágicos e desconcertantes. Alguém esquece a tripla do Penta (Rivaldo, Ronaldo e Ronaldinho)? Não há academia que produza fenómenos como aqueles! Neste momento, o futebol uniformizou-se. Trabalha-se no Brasil da mesma forma que na Alemanha e no Japão. As equipas europeias criam escolas de formação em terras de Vera Cruz para captar cedo os craques e ensinar-lhes as transições, os equilíbrios, a forma de defender e o futebol previsível e insonso que a indústria quer que eles joguem, ou seja, toda a teoria que, às vezes, esconde a técnica. Resultado: num campeonato do mundo jogado em casa, o Brasil aparece com “fernandinhos”, “ricardinhos”, “dantes” e “freds”, tendo sido cilindrado de forma deprimente pelos alemães. Este último resultado da seleção brasileira iniciará um ciclo de debate cujas conclusões, no Brasil, poderão passar pela necessidade de devolver o futebol ao povo, através do recrutamento de artistas. Artistas a sério, daqueles que jogam na rua e utilizam qualquer perda para servir de baliza. Se os canarinhos continuarem o caminho da ciência, da “europeização” do futebol, perderão sempre contra a Alemanha. A tentativa de tirar o futebol da sua origem foi nefasta para o povo que adora o jogo, levando-me à conclusão a que queria chegar. Não sou contra a existência de academias. Muito pelo contrário. Mas as academias devem adaptar-se às idiossincrasias da “mão de obra” local, ou seja, não vale a pena copiar modelos se não temos como os rentabilizar. Será caso para dizer, volta Romário. Nem que seja depois do “chope” e do Carnaval. Tenho saudades de ver-te “fintar quatro”, com “jeito de moleque”, em cima de uma mesa de jantar. P.S. Para mim terminar o texto sem falar do meu grande Marítimo é muito difícil. Assim sendo, endereço muita sorte ao novo treinador Leonel Pontes para a época desportiva que aí vem. Todos os maritimistas torcem por si e pelo “Maior e Melhor das Ilhas”.
Luís Filipe Santos, Adepto do Marítimo