O mundo está cheio de intrujões. Há, aliás, intrujões para todos os gostos: assim, assim, grandes, pequenos, moderados, sensíveis, oportunistas, românticos, avarentos. Só que nesta vertigem da intrujice há sempre um ou outro intrujão que se destaca, que sobe ao topo da charlatice, uma ciência quase exacta para quem com ela lida intimamente e se relaciona efusivamente. Quem quer se estabelecer nesta área não pode tratar as técnicas da aldrabice com amadorismo. Torna-se um intrujinho incompetente. Um zé ninguém que passa despercebido. Mais um anónimo da sociedade, teso e sem poder. Gente que, segundo os intrujões de papel passado, faz lembrar outra gente que, na maior parte do tempo, fazum esforço patético de esticar o ordenado para levar os filhos aos Macdonald’s. Ser intrujão a sério é uma coisa muito complicada. Nem todos os candidatos deste mundo chegam lá. O caminho para subir ao patamar que lhes dá oportunidade de figurar no quadro de referência dos magos da trafulhice e das trocas-baldrocas, é um calvário da trapaça e da marosca. Um intrujão encartado é uma coisa séria. Têm referências escritas que justificam as competências em várias línguas e, normalmente, sujeitam-se a referencias externas para validar a sua experiência e os resultados obtidos. Tudo como manda a lei e exige a escola superior da intrujice. A dimensão do intrujão não se mede apenas pela capacidade intrínseca de intrujar, mas também, e sobretudo, pelas consequências dos embustes e a sua resiliência aos obstáculos. Estava para aqui a pensar nesta classe social privilegiada, porque lembrei-me da última entrevista na RTP-M do Senhor Presidente do Governo Regional, um verdadeiro evento cultural que ocorreu à menos de uma semana. Um dos momentos mais marcantes desse simbólico serviço público à sociedade madeirense, foi o tratamento e as referências à divida gigantesca que tem concentrado toda a atenção das opções governativas. Às páginas tantas observei o olhar e a fúria descoordenada e intensa do Dr. Jardim, num episódio raro de verdadeira emoção, reagindo violentamente ao facto do memorando da TROIKA não ter incluído a divida da Região, no acordo tripartido, podendo assim minimizar o esforço dos madeirenses e os efeitos da irresponsabilidade. Pensei. Muito bem visto. Essa sim, teria sido a solução certa, o contributo para a solidariedade compreensível e adequada com a Madeira. Talvez assim, continuei a reflectir, ficaríamos sujeitos apenas à austeridade nacional e não a uma duplicação de sacrifícios. Mudei de canal, exausto pela adrenalina que esta revelação me provocou e acabei atento à novela que por sinal é uma verdadeira passagem de intrujões, atrás de intrujões. De repente, lembrei-me: mas o memorando da troika foi assinado em Junho de 2010, por essa altura o Dr. Jardim andava entretido a me insultar, e a outros, que alertava para uma divida impagável e extraordinária. Nessa mesma época, os deputados do PSD-M, o Dr. Garcês, o Dr. Jardim e o resto do governo (menos o Senhor Jaime Freitas) sublinhavam, com todos os dentes, que a dívida era muito pequena e não passava de 2 000 milhões. Até aprovaram um relatório de uma comissão de inquérito. Está tudo nas actas da ALRAM. Portanto, como queria o Senhor Presidente do Governo da Madeira que o Governo da República, a UE e o FMI, incluíssem no memorando de entendimentouma dívida que ninguém conhecia, que estava escondida, oculta e com facturas debaixo do tapete? Divida essa que só foi revelada e descoberta, com grande estrondo, em Setembro desse ano, 4 meses mais tarde.Pensei antes de adormecer: mais um que está longe de atingir o topo da trafulhice. Há intrujões e intrujões.
Carlos Pereira Líder parlamentar do PS-M