Judite de Sousa para além de tudo o que dela conhecemos é no momento uma mãe em dor profunda. Tudo o que se possa dizer minuto a minuto nas redes sociais não acrescenta nem diminui uma perda brutal irreversível. O André morreu acidentalmente. Os pormenores que possam interessar, nomeadamente à família, deviam interessar pouco a todos nós. A curiosidade é comum mas devia ter limites quando em causa está uma das perdas mais difíceis de suportar. A Judite é uma figura pública, uma mulher da comunicação e como tal habituada a lidar com entusiasmos mediáticos, mas ela é uma pessoa que enfrenta, no momento, a dor mais profunda que enquanto profissional já partilhei. Imaginar é insuficiente, colocar-se no lugar muito penoso. Um filho é um livro de memórias uma história contada a dois, um amor para a vida e pela vida. Sonhos, planos, o prazer de os ver crescer com a saudade do tempo em que um sorriso bastava para quebrar o cansaço do dia. A preocupação constante e a aprendizagem de que não nos pertencem em exclusivo e que é preciso soltar amarras e deixa-los partir. Partir para a vida, para os desafios, correr riscos, aprender com a experiência. Noites inquietas e noites sossegadas. Sensação de dever cumprido e um amor incondicional que suporta quase tudo até mesmo os momentos mais difíceis. Dar a vida por um filho é um pensamento comum a alguns pais que nunca se imaginaram a negociar a sua vida e quando pensam nos filhos nem hesitam em coloca-la à disposição, caso as circunstâncias da vida assim o exigissem. A morte é que nunca surge como hipótese. Pensa-se é um facto mas não se desenvolve. Só de pensar magoa. É anti natural. Claro que a cultura ocidental nega o mais possível a evidência da morte e a sua imprevisibilidade e por isso apesar da espiritualidade de cada um, salvo raras exceções, a aceitação da morte, essencialmente quando é precoce e não corresponde ao esperado ciclo da vida, é sempre dramática. Há contudo um tempo para a aceitação e confronto com a realidade, o que se chama de luto, que se processa por fases que são mais ou menos densas consoante as circunstâncias e as competências emocionais de cada um. Não existem prazos específicos. O luto por um filho é sem dúvida dos mais difíceis e exige um respeito profundo de todos e um imenso suporte afetivo das pessoas mais próximas. Fazer notícia é uma coisa vasculhar pormenores sem significado é um massacre. É importante alertar para riscos e excessos mas de uma forma séria e não sensacionalista. Não basta dar a entender, em situações limite, que determinados comportamentos de risco podem pôr fim à vida. Existem programas de prevenção e equipas no terreno que poderiam ter mais visibilidade na comunicação social. Importa que a mensagem circule de forma continuada e não apenas associada de uma forma pouco direta a situações demasiado específicas. As leis também precisam de estar alinhadas assim como a obrigatoriedade para o cumprimento das mesmas.
Manuela Parente