« A paisagem é conhecida, mas o momento transforma -a e fá-la estranha, arruinada e monumental… Dir-se-ia, a cada instante, que vou descobrir um palácio abandonado…A tarde prolonga-se para além de si mesma, e a hora, contagiada de eternidade, infinita, pacífica, insondável…A noite cai, brumosa já e arroxeada. Vagas claridades malvas e verdes perduram atrás da torre da Igreja. O caminho sobe, cheio de sombras, de fragrâncias, de erva, de cansaço e de sonho. Ao olhar pela janela aberta, vejo de quem faz barulho: são os pássaros. Saio para o horto e dou graças a Deus por este dia tão azul. Concerto livre de aves, fresco e sem fim! A andorinha ondula, caprichosa, o seu gorjeio no poço, o verdilhão palra no sobreiro, o chamariz ri longa e finalmente no alto do eucalipto, e, no pinheiro grande, os pardais discutem desaforadamente. Que manhã ! O Sol põe na terra toda a sua alegria de prata e de ouro, borboletas de cem cores brincam por toda a parte, entre as flores, dentro da casa, na fonte. O campo abre-se em estalidos, em crepitações, num fervedouro de vida nova e sã. É como se estivéssemos dentro de um grande favo de luz que fosse o interior de uma imensa e cálida rosa acesa. Quantas rosas caem em toda a parte : rosas azuis, rosas brancas, sem cor… Dir-se-ia que o céu se desfaz em rosas. Olha como se enchem de rosas a fronte, os ombros, as mãos…Que farei eu com tantas rosas? Sabes, acaso, de onde é esta branda flora que eu não sei de onde é -, que todos os dias enternece a paisagem e a deixa docemente rosada, branda e azul-celeste - mais rosas, mais rosas - , como um artista que pintava o céu de joelhos ? Parece que das sete galerias do Paraíso arremessam rosas para a Terra. Como um nevão, pálido e vagamente colorido, as rosas prendem-se na torre, no telhado , nas árvores. Olha: o que é tosco torna-se, com o seu adorno, delicado. Mais rosas, mais rosas… Enquanto soam as Ave-Marias, que esta vida perde a sua força quotidiana, e que outra força interior, mais altiva, mais constante e mais pura, faz que tudo, como em repuxos de graça, suba às estrelas que acendem já entre as rosas…mais rosas…e os teus olhos, que não vês, e que ergues mansamente ao céu, são seus espelhos. Que pura, e que bela, esta flor do caminho ! A seu lado passam todos os tropéis - os touros, as cabras, os potros, os homens -, e ela, tão terna e tão débil, continua de pé, verde e fina, no seu triste valado, sem se contaminar com nenhuma impureza. Quando, ao começar a encosta, metemos pelo atalho, todos os dias a vês no seu posto verde. Já tem ao seu lado um passarinho, que se levanta - porquê ? - quando nos aproximamos, ou está cheia, como uma pequena taça, da água clara de uma nuvem de estio, já consente o roubo de uma abelha ou o volúvel adorno de uma mariposa. Esta flor viverá poucos dias, Amor, mas a sua lembrança será eterna. A sua vida será como um dia da tua Primavera, como uma Primavera da minha vida. Quanto eu não daria ao Outono em troca desta flor divina, para que ela fosse diariamente o exemplo simples da minha vida ? Anda, aproxima-te lentamente…, deita-te aqui e ao som da longa canção de embalar, adormece como uma criança. Medo. Respiração contida. Suor frio. O terrível céu baixo afoga o amanhecer. [ Não há por onde fugir. ] Silêncio…O amor pára. Treme a culpa. O remorso fecha os olhos. Mais silêncio…O trovão, surdo, retumbante, interminável, como uma carga de pedra que do zénite caísse sobre a aldeia, percorre, longamente, a manhã deserta. [ Não há por onde fugir.] Tudo quanto é débil - flores, pássaros - desaparece da minha vida. Tímido, o espanto olha pela janela entreaberta de Deus, que tragicamente se ilumina. No Oriente. Entre rasgões de nuvens, vêem-se uns tons malvas e róseos, tristes, sujos, frios, que não podem vencer a negrura. Ave-Marias! Umas Ave-Marias fortes e abandonadas soluçam sob o trovão. As últimas Ave-Marias do mundo ? E deseja-me que o sino acabe depressa, ou que afogue a tormenta. E vai-se de um lado para o outro, reza-se, e não se sabe o que se quer…só que saibas, que elevo a cabeça para as estrelas, com uma suave nostalgia infinita…O poço ! Que palavra tão funda, tão verde-clara, tão sonora ! Parece que é a palavra que perfura, girando, a terra escura, até chegar à água. Olha : a figueira adorna e destrói o seu parapeito. Dentro, ao alcance da mão, abriu entre os ladrilhos limosos uma flor azul de odor penetrante. Uma andorinha tem, mais abaixo, o ninho. Depois, atrás de um pórtico de sombra fria, há um palácio de esmeralda e um lago, que, quando se arremessa uma pedra à sua quietude, se enfada e resmunga. E o céu, ao fim. [A noite entra e a Lua inflama-se lá no fundo, adornada de volúveis estrelas. Silêncio! Pelos caminhos a vida partiu para longe. Pelo poço, a alma foge para o outro lado do crepúsculo. E parece que vai sair da sua boca um gigante, dono de todos os segredos. Ó labirinto quieto e mágico, parque sombrio e magnético salão encantado ! ] Escuta: se um dia eu me deitar a este poço, não será para me matar, acredita, mas para agarrar mais depressa as estrelas. A noite é tão clara que as flores do jardim vêem-se da cor delas, como de dia. Na última casa da rua, sob um lampião rubro e vacilante, alguém solitário dobra a esquina…Eu ? Não. Eu, na flagrante penumbra, celeste, móvel e dourada, que a Lua, os lilases e a sombra formam, escuto o meu profundo coração sem parar…A esfera gira brandamente…Deus está no seu palácio de cristal. Quero dizer que chove, chove…E as últimas flores, que o Outono deixou teimosamente presas nos ramos exangues, carregam-se de diamantes. Em cada diamante, um céu, um palácio de cristal, um Deus. Olha esta rosa; tem dentro outra rosa de água, e ao sacudi-la, vês?, cai-lhe a nova flor brilhante, como alma sua, e ela fica triste, como a minha. A água deve ser tão alegre como o Sol. Se não, olha como correm felizes, sob ela, as crianças, fortes e coradas, com as pernas nuas. Vê como os pardais entram, num alvoroço bando súbito, na hera, na escola. Chove. Hoje não vamos para o campo. É dia de contemplações. Olha como escorrem as goteiras do telhado. Olha como se lavam as folhas verdes, como o barquito da criança, ontem parado entre a erva, voltou a navegar na valeta. Olha agora, neste sol instantâneo e débil, como é belo o arco-íris que sai da Igreja e morre, num vago vislumbre, a nosso lado! Vês-nos, não é verdade ? Não é verdade que vês como ri em paz, clara e fria, a água da nora do horto; como voam, na luz derramada, as abelhas atarefadas, na luz derramada, as abelhas atarefadas em volta do alecrim verde e malva, róseo e dourado pelo sol que ainda ilumina a colina? Vês-nos, não é verdade ? Não é verdade que me vês passar pela encosta rubra, triste na imensa pureza que une a terra e o céu num só cristal de esplendor? Vês-nos, não é verdade? Não é verdade que vês as crianças correndo, entre as estevas que têm pousado nos ramos as próprias flores, leviano enxame de vagas borboletas brancas, gotejadas de carmim? Vês-nos, não é verdade ? Acaso me esqueceste ? Diz-me, por favor, ainda te lembras de mim ? » Para ti esta carta leva a minha alma - só a minha alma ! - para ti esta carta que fala de ti, agora que podes entendê-la - , está entre as rosas confundida com rosas, mais rosas… Sabes, meu eterno Amor, a solidão é como um grande pensamento de luz…
Renata Camacho